Tão perto do olhar, tão longe do mundo
Sexta-feira, 5 de Março de 1976
O dia começou como começam os dias que não prometem nada: levantar, preparar, sair. A rotina já não me pesa — pesa-me, isso sim, o que nela falta. Há ausências que se tornam hábito.
De manhã, as horas passaram sem deixar marca.
Foi de tarde que o dia decidiu mostrar-se.
Saí do trólei no Bonfim, a caminho do liceu, quando a vi. A Dila. Assim, sem aviso, como só as coisas importantes sabem fazer. Não houve gesto, nem palavra. Apenas presença. Doce. Suave. Uma visão breve, mas inteira.
Estava perto — perto o suficiente para reconhecer-lhe o andar, a forma de ocupar o espaço, aquela leveza que não se aprende. E, ao mesmo tempo, longe. Longe como só estão as coisas que já nos tocaram fundo demais.
Não sei se me viu. Talvez sim. Talvez não. Também isso já não importa tanto. O que ficou foi aquele instante suspenso, como se o mundo tivesse prendido a respiração por um segundo. Depois voltou tudo ao normal. O barulho, o passo apressado, o dever.
Segui caminho com a sensação estranha de quem recebeu muito sem ter pedido nada. Não houve alegria ruidosa, nem tristeza clara. Houve apenas um reconhecimento silencioso: ainda dói um pouco, logo ainda importa.
As aulas sucederam-se como páginas lidas em diagonal. Cumpri. Estive. Assenti. Às vezes viver parece isto: um conjunto de verbos no modo automático. O corpo sentado, a cabeça a regressar vezes sem conta àquele instante no Bonfim. Há imagens que não pedem explicação. Limitam-se a ficar.
O dia terminou sem mais encontros. Mas bastou aquele.
Às vezes, um olhar que não acontece é suficiente para encher um dia inteiro.
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