Volta o silêncio interior

Quinta-feira, 4 de Março de 1976

Ontem fechei portas antigas sem lhes tocar. Limitei-me a passar por elas, como quem passa por um retrato pendurado num corredor estreito: olha-se, reconhece-se, segue-se. Hoje, a vida resolveu fazer o que sabe melhor — continuar.

As aulas regressaram. A campainha tocou como sempre, os corredores cheiravam ao mesmo pó de passos apressados, os professores repetiam gestos gastos. Tudo parecia igual e, no entanto, nada o era. Há um antes que não volta, mesmo quando fingimos que sim.

Sentei-me na carteira com a sensação estranha de estar presente só até meio. O corpo ali, a cabeça noutro sítio. As palavras escritas no quadro entravam-me pelos olhos e saíam sem fazer morada. Já não se aprende da mesma forma quando se percebe que o tempo também aprende connosco.

Vi rostos conhecidos, ouvi risos familiares, troquei frases banais. A rotina é um disfarce eficaz: por fora, normalidade; por dentro, um desvio silencioso. Cada dia de aulas é agora uma espécie de ensaio geral para uma vida que ainda não começou, mas que já ameaça.

Pensei na Dila. Não como ontem, com peso e eco, mas como se pensa numa música antiga que já não dói — apenas confirma que existiu. Há memórias que se tornam santuários não por serem sagradas, mas porque não se entra nelas de ânimo leve.

No regresso a casa, o caminho foi o mesmo de sempre. As pedras, as curvas, os muros. Só eu era outro. E isso basta para que tudo mude.

O dia acabou sem sobressaltos. Nenhuma revelação. Nenhuma queda. Apenas esta certeza nua: a rotina voltou, mas os tempos de outrora ficaram onde sempre ficam — atrás, a ensinar sem pedir licença.

Amanhã há mais aulas. E mais silêncio interior. A adolescência também é isto: aprender a viver depois do espanto.


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