Onda as memórias falam alto
Quarta-feira, 3 de Março de 1976
As férias de Carnaval continuam. O dia acordou livre de obrigações, e eu aproveitei essa liberdade para fazer o que faço melhor quando não sei muito bem o que sentir: andar.
Saí sozinho. Não para fugir de casa, mas para regressar a mim. Fui revisitar lugares. Não sítios quaisquer — lugares carregados de sensações, de odores, de silêncio antigo.
Comecei pelo Largo da Farmácia. Ali, tudo parece sempre provisório. Pessoas passam, ninguém fica. Mesmo assim, é um ponto de encontro invisível, como se a vida combinasse ali sem avisar. Lembrei-me de conversas mal acabadas, de esperas sem nome, de olhares que nunca souberam para onde ir depois.
Subi depois ao Alto do Depósito. O ar muda ali. Há mais vento e menos desculpas. Sempre foi um lugar de distância — do chão, das casas, dos outros. Ficar ali é aprender a ver as coisas de cima, mesmo quando por dentro estamos por baixo. Parei uns minutos. Respirei. O corpo lembrava-se antes da cabeça.
Segui para o Monte. O Monte não pede pressa. Obriga-nos a abrandar, como se cada passo tivesse de justificar a sua existência. Ali as memórias não falam alto, sussurram. São antigas, quase sem data. Sensações mais do que imagens. O som dos passos, o cheiro da terra, a luz filtrada — tudo isso ficou gravado num tempo que não sei medir.
Por fim, voltei à pedra.
A pedra dos encontros.
Sentei-me no mesmo sítio. Não para recordar um momento específico, mas todos ao mesmo tempo. A forma como ela se sentava. O espaço exato entre nós. O silêncio confortável que só existe quando não é preciso provar nada a ninguém.
Hoje a pedra estava fria. Não era um acto de censura, repreensão, crítica ou desaprovação dirigido a mim. Era apenas uma constatação.
Fiquei ali algum tempo, sem relógio. Não pensei muito. Limitei-me a estar. Há lugares que nos conhecem melhor do que as pessoas. E aquele conhecia-me bem demais.
Voltei para casa ao fim da tarde. Não trouxe respostas. Mas trouxe algo mais raro: a sensação de que a memória também é um lugar onde se pode caminhar sem se perder.
E isso, num dia de férias, chega.
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