Quando o tempo ficou a olhar
Terça-feira, 2 de Março de 1976
Dia de Carnaval. Não houve aulas. A escola ficou vazia e, por uma vez, ninguém teve de fingir interesse pelo quadro preto.
Saí com o Manel e o Benjamim. Não havia plano definido, apenas o velho instinto de ir andando até onde os passos sabem o caminho sozinhos. Fomos dar um passeio até ao lugar onde tantas vezes me encontrara com a Dila. Não porque esperasse vê-la — mas porque certos sítios chamam-nos mesmo quando não queremos atender.
E então aconteceu.
Ela estava lá. Com as irmãs.
O mundo não parou — isso é coisa que se diz — mas ficou mais lento, como se alguém tivesse rodado mal o botão do tempo. Olhamo-nos. Longamente. Sem pressa. Sem gestos. Sem palavras. Não houve sorrisos nem desvios de olhar. Houve apenas reconhecimento. Aquele instante cru em que duas pessoas sabem que continuam ali, apesar de tudo.
Nenhum de nós falou. E, curiosamente, não fez falta.
O Manel e o Benjamim afastaram-se naturalmente, como se sentissem que aquele silêncio não lhes pertencia. Fiquei só. E foi essa ausência que me empurrou — não os pés, mas algo mais fundo — até ao lugar onde tantas vezes me sentara com ela.
A pedra.
Sentei-me onde costumávamos ficar. O mesmo sítio. A mesma perspectiva. Mas agora sem o peso quente do corpo dela ao meu lado. Só a memória, que pesa mais do que parece.
Olhei em redor. O espaço estava igual. Eu não.
A Dila continuava ali, à distância certa para doer sem sangrar. Não trocamos mais nenhum olhar. Bastara o primeiro. Há encontros que se fazem uma vez e duram o dia inteiro.
Voltei para casa com a sensação estranha de ter vivido muito… sem ter feito nada.
O Carnaval passou assim: sem máscaras, sem risos, sem barulho. Só um silêncio cheio de significado — desses que não se esquecem, mesmo quando tentamos.
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