O cansaço que não se vê

Segunda-feira, 1 de Março de 1976

Março começou sem pressa. Não trouxe sol nem promessas, trouxe apenas continuidade — e às vezes isso é tudo o que a vida tem para dar.

Levantei-me cedo, ainda com o corpo preso a Fevereiro. Havia em mim uma espécie de cansaço fino, não físico, mas aquele que se instala quando nada dói em excesso… e nada entusiasma verdadeiramente. Um equilíbrio estranho. Perigoso até.

De manhã tratei do habitual: estudei um pouco, enquanto ouvia música dos Beatles. O tempo parecia andar ao lado, não à frente. O Benjamim apareceu como quase sempre, como se a casa fosse também dele. Falamos um pouco. Quando se fala todos os dias, as palavras começam a repetir-se e perdem importância. Ficamos mais tempo calados do que o costume. Não foi incómodo. Foi apenas… real.

De tarde fui para o liceu. As aulas passaram sem deixar rasto. Professores, quadros, cadernos — tudo funcionava, mas nada marcava. Senti-me presente e ausente ao mesmo tempo, como quem cumpre um papel que ainda não escolheu.

No caminho de regresso a casa, dei por mim a pensar nela. Não foi um pensamento violento, nem triste. Foi breve, quase educado. A Dila surge agora assim: entra, olha, fica um segundo… e sai. A saudade já não grita. Aperta em silêncio. Aprendeu boas maneiras.

Cheguei a casa, lanchei, vi televisão sem realmente ver. À noite, escrevo isto. Março começou como começa muita coisa importante: sem alarido, sem aviso, sem drama.

E talvez seja assim que as mudanças verdadeiras entram — pé ante pé, enquanto fingimos que nada está a acontecer.

Amanhã logo se vê.


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