Um respirar sem dor

Domingo, 29 de Fevereiro de 1976

Há dias que parecem nascer com um sorriso discreto, daqueles que não se notam se não estivermos atentos. Este foi assim. Talvez por ser um dia que quase nunca existe, senti-o logo de manhã com um ar de visitante especial — um dia que veio só para mim, como se dissesse: “Aproveita. Não volto tão cedo.”

Os rapazes apareceram cedo. O Manel bateu à porta primeiro, com aquela pressa de quem não suporta domingos parados. O Benjamim chegou pouco depois, meio despenteado, violão às costas, a dizer que “tinha um acorde novo” — que, claro, era igual a todos os outros. Começamos por ficar em minha casa, mas os dias de amizade têm sempre pernas inquietas.

Saltamos de casa em casa como quem faz um percurso sagrado: primeiro fomos a casa do Manel, onde a mãe nos ofereceu bolachas que sabiam a infância. Falamos de tudo um pouco, rimos de coisas que nem tínhamos a certeza de serem assim tão engraçadas. Depois seguimos para casa do Benjamim, onde o violão ganhou protagonismo e a conversa mudou de tom. Ele tem sempre aquela facilidade de transformar qualquer silêncio num ritmo.

A verdade, porém, é que o dia acabava sempre por regressar a minha casa — como se houvesse ali uma espécie de ponto de repouso, um lugar onde as nossas três energias assentavam melhor. A minha mãe, já habituada ao entra-e-sai, apenas abanava a cabeça com um sorriso. E nós instalávamo-nos na sala como quem reivindica território.

Falamos de música, de bandas novas, de sonhos para daqui a dez anos (todos ridículos, o que os tornou ainda mais bonitos). O Benjamim insistiu que um dia ia viver em Londres, o Manel jurava que ia escrever um livro “sem páginas a mais nem a menos”, e eu… eu ouvi. Não prometi nada, mas senti dentro de mim algo a mexer-se — não uma ambição clara, mas a lembrança de que ainda tenho futuro.

A certa altura, enquanto eles discutiam qualquer coisa sobre o Festival da Canção, eu dei por mim a olhar para os dois. E pensei, sem dizer:
Eles não imaginam o que fazem por mim.
Não eram terapia, nem remédio, nem uma fuga — eram simplesmente a prova de que a vida continua a chamar por mim, mesmo quando finjo que não ouço.

Ao fim da tarde, a luz entrou pela casa com aquela cor quente de domingo cansado. Tocamos mais um pouco — mal, mas com convicção — e depois, quase sem darmos por isso, a conversa morreu numa espécie de silêncio confortável. Senti-me bem ali, sentado entre eles, sem precisar de fingir força nem de explicar tristeza nenhuma.

Quando finalmente foram embora, já a noite caía. Fiquei um momento à porta a olhar a rua vazia. E senti qualquer coisa nova, ténue: não era alegria, era… um respirar sem dor. Um espaço aberto dentro do peito onde antes só havia um peso. Um pequeno milagre num dia que nem devia existir.

Fechei a porta, arrumei as chávenas na cozinha, fui para o meu quarto. Antes de me deitar pensei na Dila — claro que pensei — mas a dor pareceu recuar, como quem diz: “Hoje não. Hoje deixo-te em paz.”

E assim adormeci: com a estranha sensação de que, mesmo sem resolver nada, avancei um passo.


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