A claridade que não faço por chamar

Sábado, 28 de Fevereiro de 1976

Acordei com a sensação estranha de ter dormido demasiado. O corpo parecia mais leve, mas a alma ainda não tinha decidido se queria acompanhar. Fiquei alguns minutos deitado a olhar para o tecto, a ouvir o silêncio da casa, e percebi que a dor dos últimos dias já não estava a mandar em mim — apenas seguia comigo, como uma sombra mais discreta.

Levantei-me devagar, com aquela prudência de quem não quer mexer demasiado no ar para não espantar a calma. O sábado tinha qualquer coisa de suspenso. Uma espécie de promessa que não chega a formar frase.

Passei a manhã, antes de ir para o liceu, em tarefas pequenas: arrumar a secretária, rever cadernos, ouvir uma ou outra cassete sem grande entusiasmo, mas também sem aquela urgência de fugir de mim. Era como se a tristeza tivesse perdido o direito de ser protagonista. Continuava ali, claro, sentada num canto, a observar-me com um ar de quem diz: “Eu ainda volto.” E eu respondia em silêncio: “Se voltares, ao menos bate à porta.” As aulas foram curtas, rápidas e sem história.

Depois do almoço dei um passeio curto pelas redondezas. O ar estava frio, mas limpo, e havia uma luz fina a escorrer pelas ruas — nem alegre, nem triste, só neutra. Gosto de dias assim: não exigem nada de nós. Andei devagar, a ver as casas, as árvores, a gente que passa sem nos conhecer. Reparei que estava a olhar verdadeiramente, não a vaguear perdido dentro da minha cabeça. Isso deve querer dizer alguma coisa, mesmo que pequena.

À tarde o Benjamim apareceu com a mania dele de que “a música cura tudo”. Trouxe o violão e desafiou-me a acompanhá-lo no pífaro. Toquei sem grandes feitos, mas toquei. Entre uma nota e outra, ele atirou uma piada daquelas que só ele acha graça, mas que me fez rir pela surpresa. O Manel juntou-se depois, com histórias exageradas de gente que não conhecemos. E por uns momentos senti que a vida, mesmo ferida, se mexia.

Quando eles foram embora, já o sol caía. Fiz chá, sentei-me na secretária, e folheei o “Escuta, Zé Ninguém” outra vez. A certa altura li uma frase que me bateu com uma força suave:
“Tens medo da tua própria liberdade, porque ela te obriga a ser inteiro.”
Fechei o livro e deixei a frase pousar dentro de mim. Talvez seja isso — talvez eu ainda não saiba bem quem sou quando não estou preso à dor.

A noite chegou sem grandes dramas. Arrumei a roupa para amanhã, ouvi mais um lado de um disco qualquer, e deixei o corpo amolecer. A mente ainda sussurrava o nome da Dila de vez em quando, mas sem aquela pontada de faca. Era mais uma recordação do que uma urgência.

Antes de me deitar, olhei-me ao espelho — um daqueles olhares rápidos, sem poesia — e pensei: “Estás a voltar devagar. Deixa.”
Deitei-me, puxei os cobertores, e deixei que o sono viesse como um animal manso.

E assim terminou o sábado: nem feliz, nem triste — apenas meu.


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