O peso que já não pesa tanto

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 1976

Hoje acordei antes do despertador, mas pela primeira vez em vários dias não senti aquele murro no peito ao abrir os olhos. A dor estava lá, claro — ainda não tirei férias dela — mas parecia diferente, mais domesticada, como um animal cansado que já não morde, apenas observa.

Talvez fosse o livro de ontem, talvez fosse a música, talvez simplesmente a exaustão de sofrer. Mas hoje, ao pôr os pés no chão, senti que o mundo já não era aquele túnel de sombras onde me tinha metido. Era só a manhã. E eu nela.

O caminho até ao liceu foi quase confortável. Reparei que o ar estava frio de um modo amigável, e até os ruídos da rua pareciam menos agressivos. Não pensei na Dila — ou melhor, pensei, mas sem aquele aperto instantâneo. Foi mais como uma lembrança doce e melancólica que se aceita sem lutar.

No liceu, os amigos estavam à minha espera. O Manel, sempre com aquele humor seco, disse que finalmente parecia “gente viva”. O Benjamim, com a leveza de quem transpira música, apertou-me o ombro como se dissesse sem palavras: “É assim mesmo.” Senti-me grato. Eles nunca me deixaram cair completamente — só eu é que me escondi.

Passamos os intervalos a falar de trivialidades: uma música nova, um colega que se apaixonou pela professora de francês, e aquela eterna discussão sobre se o Benfica jogava bem ou se ganhava só por teimosia. Rimos — e eu ri com verdade. Soube-me bem. Soube-me a regresso.

Durante as aulas tentei concentrar-me. Nem sempre consegui, mas fiz o esforço. Quando a cabeça fugia, puxava-a de volta com uma frase do Reich, que ainda me andava a ecoar por dentro: “Vive de modo autêntico, mesmo que te doa.” Parece um conselho simples, mas é mais fácil mudar o curso de um rio do que o de um coração inseguro.

À tarde, em casa, voltei à música. Peguei no pífaro e deixei as notas subirem pela casa como pequenos pássaros. Não são grande coisa, eu sei, mas ajudam-me a limpar os cantos onde a tristeza insiste em morar.

A certa altura, sem pensar muito, peguei de novo no Zé Ninguém. Li mais um capítulo. E, quanto mais lia, mais me surpreendia a ver-me ali — aquele rapaz que quer viver com força, mas é puxado por dentro por medos velhos, educações rígidas, expectativas que não escolheu. Há qualquer coisa de libertador em ver a própria fraqueza escrita no papel. É quase como se alguém dissesse: “Não és só tu.”

A noite caiu devagar. Não houve aflição, nem lágrimas, nem aquela vontade de me punir por tudo. Houve só uma espécie de paz desconfiada — daquelas que não sabemos se vai ficar, mas que agradecemos enquanto dura.

Antes de adormecer, pensei na Dila. Não doeu como antes. E senti que, se o tempo quiser, o reencontro virá. Se não quiser, que ao menos me deixe ser inteiro outra vez.

E assim adormeci, já sem precisar de castigos nem de desculpas. Apenas eu, finalmente a respirar.


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