A ferida à espera do tempo

Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 1976

Acordei com aquela sensação de cansaço que não vem do corpo, mas da alma. Como quem passou a noite a carregar pedras em sonhos que não lembra. Mas, pela primeira vez em dias, senti uma pontinha de lucidez: a culpa era minha, sim — e se era minha, então não adiantava continuar a dar-lhe voltas como um animal preso dentro de si.

O que aconteceu com a Dila foi um corte fundo — eu fiz o golpe e agora não posso exigir que sangue volte atrás. O mínimo é ter a decência de esperar que o tempo faça o seu trabalho, lento mas certeiro. Que ele trate a ferida, que a feche quando tiver de fechar. Hoje, pelo menos, decidi não me chicotear mais.

Saí de casa com essa resolução: não fugir mais de mim, nem mergulhar em poços que só me afogam. O mundo estava ali, mesmo à porta, e eu tinha fingido muitos dias que ele não existia.

Os meus amigos, o Manel e o Benjamim, também já tinham dado sinais de cansaço. Não de mim — mas do meu desaparecimento. Ontem mal lhes falei, hoje tentei redimir-me. O Benjamim apareceu de manhã com o violão às costas, como quem vem salvar um náufrago, e eu sorri-lhe — um sorriso verdadeiro, finalmente. O Manel, sempre mais sério do que finge, disse que eu “andava estranho” e eu respondi com aquela ironia rápida que uso quando não me quero justificar. Eles riram. E ri também, um pouco.

A música ajudou — como sempre ajuda. O violão, o pífaro, os acordes improvisados, tudo serviu para empurrar para trás aquela névoa cinzenta que me tem seguido como um cão magoado. Houve meia hora em que me esqueci de tudo, até de mim. E isso soube a água fresca.

De tarde, tentei voltar à rotina: liceu, conversas banais, o barulho bom de gente à volta. Ainda não sou eu por inteiro, mas já não sou só um ferido à espera de se esconder. Há momentos em que me apanho a ouvir, a observar, a sentir curiosidade — como se o mundo estivesse a reacender-se devagar.

A leitura, essa velha amiga, puxou-me de volta como quem me toma pela mão. Há sempre ali um refúgio que não falha. Hoje, antes de me deitar, peguei no livro que tinha deixado esquecido na mesa-de-cabeceira: “Escuta, Zé Ninguém” do Wilhelm Reich.

Gostei logo das primeiras páginas. Há ali um desabafo que não é só dele — é meu também. Aquele sentimento de sermos impedidos de viver de forma plena por causa das estruturas, das expectativas, dos medos que herdamos. Li devagar, como quem mastiga as palavras para lhes sentir o peso. E vi-me naquele Zé Ninguém — não como acusação, mas como espelho. Prisioneiro, não por grades, mas por receios, culpas, e essa mania de nos diminuirmos antes que o mundo o faça.

A certa altura fechei o livro sobre o peito e fiquei uns minutos a olhar o escuro. Não senti dor, nem aquela humidade nos olhos que tem sido companheira recente. Senti só… reconhecimento. Talvez seja assim que se começa a curar: primeiro reconhecemo-nos na nossa própria fraqueza. Depois aprendemos a levantar-nos.

Adormeci com o livro ainda na mão, como quem se agarra a uma corda que puxa para fora do buraco.

E amanhã — sim, amanhã continuo.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »