O dia que me levou sem me levar
Acordei como quem regressa de uma noite de insónia, embora tivesse dormido. O corpo parecia ter passado a madrugada numa luta que não lembrava, e a cabeça vinha pesada, cheia das palavras que não disse. A imagem da Dila apareceu logo, antes do primeiro piscar de olhos — como um reflexo inevitável. E veio com aquela pergunta que me queimava desde ontem:
Porquê é que não fui ter com ela?
Levantei-me devagar, quase contrariado, como se cada movimento me puxasse para trás. A rotina, essa criatura paciente, lá estava à minha espera: lavar a cara, comer qualquer coisa sem sabor, fingir que o dia começa como todos os outros. Mas não começou. Não podia começar. O Bonfim ainda estava dentro de mim.
No caminho para o liceu senti-me meio ausente, meio espectador do meu próprio corpo. As pessoas passavam, falavam, riam, mas tudo me chegava abafado, como se alguém tivesse colocado um pano grosso entre mim e o mundo. O orgulho de ontem tinha-se desfeito, restando só aquela dor macia e contínua, teimosa como um dente a latejar.
Ao almoço quase não comi. O estômago estava tão irritado como o resto de mim. E não era fome, nem falta dela — era simplesmente aquele incómodo que nasce quando a alma está apertada demais para deixar espaço ao corpo.
Durante as aulas fiz de conta que estava lá. Copiei palavras que não li, ouvi frases que não registei. A certa altura dei por mim a olhar para a janela como se ela fosse uma porta de fuga. Um colega disse o meu nome duas vezes até eu perceber. Sorri, desses sorrisos mortos que não enganam ninguém. Ele assentiu com a cabeça — talvez tivesse percebido mais do que eu queria mostrar.
A tarde continuou a mesma história: o tempo arrastava-me, e eu, teimoso, deixava-me arrastar. Houve um momento em que pensei que a podia ver na paragem. O coração bateu mais depressa, mas foi alarme falso. O corpo reagiu como se a tivesse visto, e isso bastou para me deixar outra vez sem chão. Estou um desastre, admito-o.
Ao fim do dia, em vez de ir com os colegas, vim directo para casa. Senti que não tinha força para ser social, nem paciente, nem sequer normal. Queria só silêncio — e talvez uma espécie de castigo para ver se a culpa sossegava.
Fechei-me no quarto assim que pude. Sentei-me na cama, como ontem, mas hoje não falei alto. Falei só para dentro, num murmúrio que nem eu ouvi bem.
Não sou covarde todos os dias.
Só ontem.
Só naquele instante.
Como se isso aliviasse alguma coisa.
Olhei para as mãos, para os ombros, para o chão do quarto. Nada respondia. E o silêncio, fiel companheiro, limitou-se a pousar a mão sobre mim — pesada, mas compreensiva. Ele sabe. Ele viu-me ontem. Ele viu-me hoje.
Adormeci mais cedo do que esperava, ainda vestido, a janela entreaberta a deixar entrar o frio que eu merecia. E antes de adormecer, como todos os teimosos que amam, murmurei para dentro:
“Amanhã… talvez.”
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