O instante que me quebrou
Terça-feira, 24 de Fevereiro de 1976
O dia começou como quem carrega pedras dentro do peito. As emoções escondidas, empurradas para debaixo do tapete do pensamento, insistiam em erguer-se como sombras maiores do que eu. A depressão não era um poço, era antes um nevoeiro — denso, pegajoso, a toldar tudo sem nunca virar noite completa.
A viagem no trólei foi um arrastar de minutos sem cor. Eu ia encostado ao vidro, a olhar sem ver, como quem espera que o tempo faça o favor de o carregar ao colo. Mas o tempo, esse malandro, às vezes decide pregar partidas.
Foi ao chegar ao Bonfim que tudo se desmoronou.
Saí do trólei com o corpo em piloto automático e, de repente, ali estava ela. A Dila. Tão perto que quase podia ouvir o ar a passar entre as palavras que não disséramos. E naquele exacto momento, num daqueles infinitésimos que se esticam até parecerem eternidade, os nossos olhos encontraram-se.
E tudo parou.
O barulho da rua calou-se, o vento suspendeu-se, até o sangue decidiu esperar para ver o que eu fazia. Foi um relâmpago lento, um rasgo de eternidade, a lembrança viva de tudo o que ainda ardia e que eu teimava em esconder.
Quis ir ter com ela. O meu corpo gritava, empurrava-me por dentro: “Vai.”
Mas o orgulho, esse velho inimigo mascarado de prudência, ergueu-se.
E o medo, aquele medo parvo de estragar tudo, fechou-me a garganta.
Por fim, a covardia — sim, não vale a pena dourar — puxou-me pelo braço e obrigou-me a seguir caminho.
Passei por ela sem voltar a olhar, como se um gesto desses fosse delito.
E ao afastar-me senti a alma rasgar devagar, como um pano húmido puxado pelas pontas.
O resto do dia foi uma repetição dessa cena, mas ao contrário: eu parado, o mundo a andar. Fui comendo a raiva de não ter tido coragem, mastigando o remorso como quem repete um sabor amargo para ver se se habitua. Não resultou. A dor ficou. A irritação comigo próprio cresceu como uma febre baixa.
À noite fechei-me no quarto, como quem se esconde de si mesmo. E com a voz surda, quase sem som, acusei-me:
“És um inútil.”
“Covarde.”
“Nem mereces a pena que lhe lês nos olhos.”
Dói escrever isto — mas dói mais não o dizer.
O pior é saber que ela me viu. E que eu virei o rosto ao que mais desejava.
Talvez amanhã… não, não prometo nada. Mas o coração ainda espera que o destino tenha paciência para mais um erro meu.
Depois das palavras murmuradas contra mim próprio, o quarto pareceu encolher. As paredes tinham o peso de alguém que nos vigia com pena, e eu não queria pena — queria só desaparecer durante uns minutos, deixar a cabeça num prego e sair a respirar outra pessoa que não eu.
Sentei-me na cama sem acender a luz. Havia qualquer coisa de justo na escuridão: ela não me pedia explicações. E foi ali, nesse breu macio, que a cena do Bonfim voltou inteira. Os olhos dela. O susto nos meus. A eternidade suspendida. E o meu passo cobarde a cortar o instante ao meio.
O pensamento doeu, mas fiquei parado, como quem aceita o castigo.
Fechei os olhos para tentar afastar a imagem, mas foi pior — ganhei-a em tamanho grande, viva, luminosa. Vi-a como se estivesse a meio metro de mim, o cabelo a cair como sempre, a boca quieta, os olhos a perguntarem sem palavras o que eu tinha medo de responder.
— Perdoa-me… — sussurrei, mas a voz não saiu limpa. Era mais um soluço do que uma frase.
Deitei-me de costas, mãos atrás da nuca, a olhar para o tecto escuro como quem olha para um céu nublado à procura de estrelas que não vêm. E então começou aquela tortura habitual:
E se ela achou que a ignorei?
E se pensou que já não sinto nada?
E se… e se… e se…
O coração é perito em inventar tragédias com os “ses”. Quase dá para montar um teatro.
Depois veio a pergunta maior, a mais dura:
E se ela esperava que eu fosse?
Aí não aguentei. Senti o nó subir até à garganta e tive de respirar devagar, como quem tenta não rebentar. A verdade nua e cruel é que eu queria ter ido. Queria ter dito qualquer coisa, nem que fosse um “Olá” desajeitado. Queria ter ficado perto. Queria ter-me ouvido a coragem.
Mas não fui. E esse não pesa mais do que qualquer palavra dita na vida.
O quarto, atento às minhas fraquezas, devolveu-me o silêncio.
Um silêncio pesado, mas não hostil.
Um silêncio que parecia dizer: “Amanhã tenta outra vez.”
E assim fiquei, imóvel, até o sono vir devagar, como quem tem medo de tocar numa ferida. Quando finalmente adormeci, levei comigo a imagem dela — não para castigo, mas porque, mesmo no meio do meu desalento, era ainda dela que vinha a única claridade possível.
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