O que ainda treme dentro de mim

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 1976

Amanhãs assim começam antes da luz: o corpo acorda, mas a alma fica presa no sonho que não quer revelar o nome da dor. Levei comigo a sombra do dia anterior como quem carrega um objecto frágil — e, ao mesmo tempo, pesado demais. A Dila continuava na minha cabeça, a ocupar o silêncio todo, a respirar nos intervalos do pensamento.

A manhã deslizou como quem não tem rumo. Eu fingia que fazia coisas, mas tudo o que realmente acontecia era dentro de mim. Um aperto, sim — desses que não precisam de poesia para doer. A crença teimosa de que o que ontem parecia um fim podia afinal ser apenas uma curva no caminho. E, admito, um medo infantil de ser eu a empurrar tudo para mais longe.

O dia avançou devagar, como se tivesse pena de mim. Cada gesto pareceu uma tentativa de me convencer de que a vida continua, mesmo quando o coração quer ficar parado num ponto exacto do tempo. Mas o pensamento nela surgia em cada canto, quase com humor: até o trólei parecia ter a forma do seu silêncio.

Houve um momento — breve, quase ridículo — em que achei que a ia ver. Não vi. Mas o corpo reagiu como se tivesse visto. E isso bastou para me fazer perceber o óbvio: a esperança é uma coisa teimosa. Entra por frestas que nem sabemos que existem.

No fim da tarde já me sentia cansado de mim próprio. Queria esquecê-la durante cinco minutos — só cinco — mas a verdade é que, se o fizesse, sentiria falta dela. Ironias de adolescente, eu sei. Mas também sei isto: o coração, quando se apaixona pela primeira vez, torna-se um animal selvagem. Ou corre, ou esconde-se. Nunca fica quieto.

À noite escrevi mentalmente o que agora deixo aqui: não aceito o fim do que talvez ainda nem começou. Amanhã… amanhã talvez o mundo me dê um sinal. Ou talvez seja eu a ter de o procurar.


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