O insólito do coração

Domingo, 22 de Fevereiro de 1976

O dia nasceu como quem não quer acordar — e eu, arrastado por um sonho doloroso, também não queria. Não direi o que vi e senti. Basta confessar que a Dila era uma sombra quente dentro dele, e ao acordar trazia-me ainda o sabor amargo de algo que não terminou… ou que talvez nem tenha começado como eu julgava. A manhã avançou assim, com o passo dorido de quem carrega uma pedra no bolso do coração. Teimava em ocupar-me com outras coisas, mas a verdade é simples: não a conseguia expulsar do pensamento.

Mesmo assim recuso-me a aceitar um fim. Que fim, afinal? Nada se fecha por completo. As portas também respiram, abrem e fecham ao ritmo das voltas do mundo. E eu acredito — teimoso como uma pedra no rio — que uma corrente muda tudo quando menos se espera.

A tarde trouxe-me fuga e alívio. Encontrei-me com um dos colegas do nosso pequeno grupo de investigação de Ovnis. Falamos de fenómenos estranhos, de luzes que desafiam o céu, de teorias trapalhonas que nos fazem sentir investigadores do impossível. Nesse intervalo de tempo, confesso, não pensei na Dila. O insólito tem esse dom: distrai-nos do que dói, mas não cura. A minha própria emoção, essa, parecia tão inexplicável como um relatório mal redigido sobre objectos luminosos.

O dia foi passando sem pressas, quase uma suspensão do que realmente me ocupava o peito. E quando a noite chegou, sentei-me comigo mesmo — como quem se encontra com um velho amigo que diz a verdade sem rodeios.

À noite voltei a minha atenção para o diário e os meus pensamentos gritavam alto: «Então, diz lá… o que procuras?»
Se eu soubesse, respondia. Procuro-a a ela, talvez. Ou procuro a versão de mim que existia quando ela me sorria. Talvez procure apenas a saída deste labirinto onde cada memória é uma esquina que me devolve ao ponto de partida.
«E se o futuro não abrir porta nenhuma?»
Pois… mas e se abrir? Basta uma fresta para o ar voltar a entrar. Talvez seja isso que me faz continuar: a fé de que o impossível às vezes tem maneiras discretas de acontecer.

Sigo assim, entre o insólito do mundo e o insólito do coração — que, convenhamos, é bem mais difícil de investigar.


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