Onde o coração se perde
Sábado, 21 de Fevereiro de 1976
A manhã abriu-se numa espécie de penumbra interior, como se o corpo tivesse acordado antes da alma e o peso dos sonhos ainda me estivesse preso aos ombros. Não dormi — sobrevivi à noite, apenas isso. E por detrás de tudo, sempre ela, a Dila, a imagem viva daquele instante no trólei: entrar, sentar-se ao lado do Manel… e olhar para mim como se eu fosse apenas ar a passar.
Na hora, fiquei gelado, quase tranquilo — aquela falsa serenidade de quem só sente o golpe muito depois de o levar. Agora, porém, a ferida veio reclamar o seu lugar: um aperto no peito, desses que parecem fechar a garganta e empurrar o ar para fora do corpo. Não há remédio para esta aflição, apenas o murmúrio teimoso dos pensamentos a insistirem em repetir a cena, como se procurassem um sentido que talvez não exista.
O dia correu assim, sem brilho nem norte, um redemoinho silencioso. Tudo o que fiz, fiz pela metade. Tudo o que vi, vi por detrás de uma névoa que me punha distante de mim mesmo. E por mais que quisesse agarrar-me ao presente, o pensamento fugia sempre pelo mesmo atalho — porquê? Tão simples a pergunta, tão impossível a resposta.
No fim da tarde, quando já não me restavam forças para continuar a fingir que estava inteiro, deixei-me cair numa espécie de silêncio resignado. Há dias em que o coração parece um quarto abandonado, com as janelas fechadas e o eco das memórias a bater nas paredes. Hoje foi um deles.
E enquanto escrevo estas linhas, sinto a lágrima que não cai mas que está cá — bem presente, a arder por dentro. Talvez seja isto crescer: perder-se um pouco, aprender a caminhar com uma sombra a mais. Talvez seja apenas amor, dessa espécie tola que não sabe proteger-se. Ou talvez seja só saudade antecipada.
O que sei é que hoje me senti esquecido. Como se a porta que eu julgava entreaberta se tivesse afinal fechado por dentro.
E dói.
Mas amanhã… amanhã talvez o peito encontre outra forma de respirar. É essa a promessa secreta dos dias: mesmo quando nos deixam em ruínas, estão sempre a abrir caminho para o que vem a seguir.
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