Portas Encerradas (?)

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 1976

O dia começou com aquela serenidade que engana: o céu cinzento e a brisa leve, mas no meu peito já se agitava uma tempestade silenciosa. A viagem de trólei para o liceu trouxe o seu próprio enigma — a Dila entrou e sentou-se ao lado do Manel, desviando o olhar de mim. Ou foi só impressão minha? O coração, sempre demasiado alerta, insistia em transformar qualquer gesto em mensagem codificada. A dúvida corroía-me por dentro, uma espécie de ansiedade persistente que não se deixa esvaziar: seria uma porta que se fechava para sempre entre nós?

Nas aulas, o mundo continuou indiferente às minhas inquietações. Após o toque final, refugiei-me na biblioteca. Livros, páginas, palavras — tudo servia de abrigo, como se pudesse afogar-me nas letras e assim escapar da realidade que doía. 

A tarde trouxe algo diferente: a curiosidade pelo inexplicável. Junto de alguns colegas, formei um grupo de investigação sobre ovnis. Entre mapas estelares, relatos de aparições e teorias improváveis, encontramos um universo maior que as minhas próprias inquietações, e por momentos, a ansiedade deu lugar a um entusiasmo quase infantil.

Mas à noite, quando as luzes se apagaram e o silêncio da casa se fez sentir, a verdade bateu-me à porta: havia uma distância que talvez eu não pudesse transpor. As sombras de receio e a solidão apertaram-se à minha volta, e percebi que a adolescência é feita também de portas que se fecham — ou pelo menos se entreabrem, deixando apenas a luz do que já foi.

Hoje compreendi que nem todos os olhares se voltam para nós, nem todas as portas permanecem abertas. Há momentos em que o coração precisa de aprender a conviver com o silêncio e a ausência. Entre a curiosidade pelo mundo e a dor do afastamento, percebo que o que nos mantém vivos é a capacidade de olhar, ainda que de longe, e de aprender com cada pequeno enigma que a vida nos oferece.

O diário fecha-se com a tinta ainda fresca de sentimentos contraditórios, mas com a certeza de que amanhã será mais uma hipótese de abrir janelas, talvez apenas no papel, mas suficientemente para respirar o ar de novas possibilidades.


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