Sintonias do Impossível
Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 1976
Acordei antes do mundo — ainda a luz não tinha decidido nascer — com aquela centelha tola e luminosa a faiscar-me na cabeça: e se ligasse o walkie‑talkie à antena da televisão? Ideia disparatada? Talvez. Mas há manhãs em que a imaginação toma o leme e nós, sem protestar, deixamo-nos ir.
Num instante estava de joelhos no soalho frio, fios espalhados como serpentes metálicas, mãos trémulas, coração aos pulos. Liguei tudo, respirei fundo… e o impossível aconteceu: vozes. Vozes reais, arrancadas ao ar, vindas do rádio‑táxi de S. Pedro. Conversas banais, é certo… mas para mim eram como sinais de outro mundo. Senti-me descobridor de continentes secretos, capitão de uma nave improvisada, a decifrar murmúrios de vidas alheias. E nasceu a pergunta atrevida: se consigo ouvir… conseguirei ser ouvido?
Guardei-a no bolso, entrei no dia, estudei, fiz de conta que era apenas mais uma manhã comum — mas a verdade é que o eco daquela possibilidade me acompanhou como um farol.
A tarde foi curta. A cabeça não estava para teoremas nem para datas históricas; estava na antena, na minha máquina frágil, na fantasia de falar com o mundo inteiro. Assim que voltei a casa recomecei a engenharia doméstica. O Manel e o Benjamim chegaram pouco depois, cheios daquela curiosidade bondosa que só os amigos têm.
Ligamos tudo outra vez.
Desta vez: silêncio.
Nem um sopro, nem um ruído distante, nem um chiado que nos permitisse fingir esperança. Nada. O impossível da manhã evaporara-se como um sonho que, ao acordar, já não sabemos se foi vivido… ou inventado.
O Manel encolheu os ombros. O Benjamim tentou animar-me. E eu, ali no meio dos fios mortos, senti a velha dúvida a regressar devagarinho: Será que as respostas que procuro andam mesmo no ar? Ou sou eu que continuo à procura de um contacto que não sei se alguma vez deixará de doer?
Porque, no fundo — e o fundo é sempre uma zona frágil — a minha imaginação só voou tão longe porque tinha um destino antigo gravado nela: a Dila. Sempre a Dila. A presença ausente que eu procuro até nos circuitos eléctricos.
Quando os rapazes se foram embora, fiquei a olhar a antena como quem olha um espelho. Sorri da minha própria teimosia — há sonhos que se recusam a ser domados — e deixei-me cair numa paz suave, dessas que só chegam quando paramos de lutar contra o que não aconteceu.
O dia deslizou depois sem ruídos, tranquilo, como se o universo me desse uma palmadinha no ombro a dizer: “calma, rapaz, há sonhos que pedem tempo”.
E à noite, antes de fechar o diário, ficou um pensamento a vibrar-me por dentro:
Talvez não tenha ouvido o mundo hoje.
Talvez tenha sido o mundo a lembrar-me que o impossível existe para nos manter desperta a alma.
E, enquanto houver em mim esta vontade tola de descobrir vozes escondidas — nas antenas, nos céus, ou no olhar de quem me povoa a memória — continuarei a tentar. Porque é neste esforço inocente que, sem querer, me vou encontrando.
Afinal, até os sonhos falhados têm uma frequência própria. Basta saber escutá-los.
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