Nitidez exterior, claridade interior

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 1976

A manhã deslizou tranquila, sem a pressa que por vezes marca os dias. As horas sucederam-se em lentidão confortável, permitindo que os pensamentos se estendessem, sem atropelos. A tarde no liceu trouxe ocupação e foco; aulas preenchidas, ideias a mexer, pequenas conquistas silenciosas, mas que imprimem no dia uma sensação de propósito.

O regresso a casa, costumeiro, tornou-se agora algo diferente: uma viagem no tempo. Cada paragem, cada curva, cada instante dentro do trólei trazia de volta a Dila, o riso dela, o jeito como respirávamos juntos o mesmo ar, como se houvesse apenas um coração entre nós. Era uma lembrança viva, pulsando entre o passado e o presente.

Os óculos, finalmente ajustados aos meus olhos, deram-me nitidez. Não apenas ao mundo físico, mas também ao mundo interior. Tudo o que antes era turvo — os sentimentos, as dúvidas, os afectos não ditos — parecia agora revelar contornos e profundidade. A clareza do olhar externo abriu uma janela para o olhar interno.

E, no silêncio do meu quarto, antes de fechar o diário, compreendo que ver claramente é mais do que enxergar formas ou cores: é perceber, aceitar e sentir cada nuance da vida que nos rodeia. Hoje aprendi que há dias sem história, mas ainda assim cheios de significado — dias em que o mundo se descortina em detalhes, pequenos e silenciosos, que iluminam o coração.


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