O Mundo Revelado

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 1976

O dia começou sereno, sem pressas, com uma manhã calma que parecia deslizar sem esforço entre as paredes da casa e a luz tênue do inverno. As aulas preencheram a tarde de forma habitual, sem surpresas nem acontecimentos dignos de registo, um dia quase monótono se não fosse pelo detalhe que mais tarde transformaria a visão do mundo.

Ao fim da tarde fui finalmente buscar os meus óculos com o Benjamim. Ao colocá-los, o mundo revelou-se com nitidez pela primeira vez — cada linha, cada sombra, cada rosto. O mundo estava mais claro, mas a clareza trouxe consigo uma reflexão mais profunda. Depois dos treinos na Academia, e no trólei no regresso a casa, a imagem do livro O Anticristo cruzou-se com os meus pensamentos, e percebi de forma aguda o impacto que a leitura de Nietzsche me causara. A relação falhada com a Dila não era apenas fruto de desinteresse ou acaso: a sua religiosidade rígida e invasiva determinava barreiras que nenhum desejo adolescente poderia ultrapassar. A percepção de um amor impossível instalou-se, firme e silenciosa, como um aviso do destino.

Ao subir a rua até casa, cada passo era acompanhado de pensamentos sobre limites, escolhas e inevitabilidades. Antes de me deitar sentei-me à secretária, caneta na mão, e o diário tornou-se o receptáculo das minhas reflexões: um amor impossível, moldado não pela falta de coragem ou paixão, mas por forças externas — crenças, regras, imposições. E assim encerrei o dia, consciente de que a vida romântica com a Dila permaneceria, por ora, no reino do desejo inalcançável.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »