Entre Nietzsche e o destino da Dila
Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 1976
A manhã passou depressa, como um fósforo que se risca e logo se consome. Não deixou grande rasto, apenas aquela sensação útil de que o tempo andou para a frente sem me pedir licença. A tarde no liceu foi curta, seca, quase um intervalo mais longo do que o próprio dia.
Mas foi na biblioteca que tudo se mexeu realmente. Andava a vaguear pelas estantes, a fingir que procurava algo quando, na verdade, esperava que fosse o “algo” a encontrar-me. E foi. Dei de caras com Nietzsche — um nome que sempre me cheirou a trovão — e decidi abrir o livro como quem abre uma porta proibida. "O Anticristo".
Foi difícil, admito. Aquelas frases em escadaria, afiadas e densas, pedem cuidado. Mas, à medida que avançava, a surpresa crescia: eu concordava com ele. Sobretudo na crítica ao cristianismo, essa ideia de que enfraquece o ser humano, amansando-o, transformando força em submissão, vontade em culpa, espírito em escravo. Havia ali algo que me tocava por dentro, como se alguém tivesse posto palavras naquilo que eu já suspeitava há muito tempo mas nunca ousara dizer em voz alta.
Saí da biblioteca ainda com aquele eco na mente.
O regresso para casa, no trólei, foi quase meditativo. Deixei-me embalar por aquele balançar lento e antigo, e fui despertando memórias que estavam arrumadas há anos no fundo do baú. Coisas nossas, minhas, da Dila e do tempo, e outras que não sei a quem pertencem, mas que insistem em vir à superfície quando menos espero.
À noite, já em silêncio, voltei a pensar em Nietzsche. Não nos pensamentos dele em si, mas no que eles abriram dentro de mim. Abriram espaço. Abriram portas. E, nesse espaço, surgiu outra religião: a religião do inevitável.
E então tudo fez sentido na minha cabeça: a minha relação com a Dila não é questão de força nem de fraqueza, nem de pecado nem de virtude, nem de castigo nem de bênção. É destino. Puro e duro.
Há coisas que não se escolhem — não porque não queremos, mas porque já estavam escritas antes de nós chegarmos. Não sei se Nietzsche concordaria com isto… mas hoje, no fim do dia, eu senti-o como uma verdade.
A verdade que encontrei foi esta: o que me liga à Dila e nos separa não é devoção, nem idolatria, nem esperança exagerada. É a religião que ela professa, muda e íntima do destino, a única que não pede para ajoelhar, mas verga a vontade dos seus seguidores com os seus dogmas e grilhetas frias cobertas de cinismo e insensibilidade.
E adormeci a pensar nisso, meio espantado, meio zangado — como quem começa finalmente a ver a forma daquilo que sempre pressentiu.
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