Um dia que passou por passar

Domingo, 15 de Fevereiro de 1976

Hoje o dia correu como os soluços: vinha, ia, voltava, desaparecia… e ninguém sabia muito bem porquê. O Manel e o Benjamim surgiam como personagens que entram e saem de cena sem aviso — ora batíamos à porta de um, ora estávamos já a caminho do outro. Era como saltitar entre ilhas que estão tão perto que quase se tocam, mas que nunca chegam a abraçar-se.

O xadrez foi a estreia da tarde. Dois reis preguiçosos, umas quantas peças perdidas no tabuleiro e nós, sem nenhuma estratégia além de evitar que o tédio ganhasse a partida. Não sei quem venceu — suspeito que ninguém — mas o jogo cumpriu o seu papel: deu-nos algo para fazer sem ter realmente de o fazer.

À noite, veio o contrário da pressa: subimos ao muro da frente de minha casa e ficamos a observar a lua através de um óculo antigo, desses de marinheiro que já viram mares mais secretos do que nós veremos em toda a vida. A lua ali, tão igual a si mesma, parecia olhar-nos com aquele ar de quem sabe que estamos apenas a ocupar o tempo até que o tempo nos ocupe a nós.

Foram aventuras sem desventuras, ocupações sem qualquer ocupação digna desse nome, memórias que mal chegaram a ser lembranças. Momentos sem tempo — isso sim — como se o dia tivesse deslizado por entre os dedos antes sequer de termos tentado segurá-lo.

E assim o dia se fechou exactamente como tinha começado: simples, breve, quase vazio… mas com aquela leveza curiosa dos dias que não deixam marca e, por isso mesmo, sabem ficar quietos dentro de nós.

Nada mudou.
Nada pesou.
Nada doeu.

E, por vezes, isso é tudo o que se pode pedir.


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