Esta serenidade leve
Sábado, 14 de Fevereiro de 1976
Acordei com a sensação de que hoje seria apenas mais um dia — nem bom nem mau, apenas dia. E assim foi. As aulas de manhã passaram-se como quem folheia um caderno sem lhe prestar grande atenção: páginas vistas, matéria dita, olhos que piscam mais do que ouvem. A escola às vezes parece uma máquina que continua a andar mesmo quando ninguém está realmente ligado a ela.
De tarde, encontrei-me com os meus amigos. Jogamos, falamos, tocamos umas músicas sem grande inspiração mas com aquela cumplicidade simples que basta para encher a tarde. Houve risos, houve piadas tolas, houve aquela sensação tranquila de pertença que não chega a aquecer o espírito, mas também não o deixa arrefecer.
Nada de especial aconteceu. E, curiosamente, isso bastou.
Não houve buscas, não houve Bonfim, não houve destino a provocar-me com silêncios. Apenas um sábado morno, uma vida normal a seguir o seu curso, como um rio que não tem pressa.
À noite, quando cheguei ao quarto, senti de novo aquela metáfora que me acompanha: a noite desce como o pano no teatro. Não importa se houve drama, comédia ou apenas actos vazios — o pano cai sempre no mesmo sítio. E nós, actores cansados, recolhemos às sombras até ao próximo dia.
Hoje não houve revelações, nem sobressaltos, nem dores de barriga sentimentais. Apenas um dia inteiro a ser o que é: passagem, pausa, página neutra entre capítulos mais ruidosos.
Fecho o diário com esta serenidade leve, quase transparente.
O pano baixou. Amanhã recomeça a peça.
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