Retrato de um espírito em espiral
Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 1976
Hoje foi daqueles dias que não contam para o calendário. Acordei, respirei, cumpri a rotina, e nada no mundo pareceu mover-se um milímetro. Mas, talvez por isso mesmo, senti que era dia de me olhar por dentro — como quem limpa o pó acumulado nas gavetas do espírito.
Às vezes penso que, se alguém lesse o meu diário sem saber quem sou, imaginaria um rapaz preso num ciclo estranho: avanço e recuo, coragem e medo, esperança e rendição. E não estaria errado.
Há semanas que ando assim, num movimento que não é linha recta, mas espiral — uma espiral lenta, meio caprichosa. Todos os dias pareço ser o mesmo, mas todos os dias mudo um pouco, como se me fosse limando por dentro.
Se tivesse de me descrever hoje, diria isto:
Sou alguém que sente demais e pensa de mais perto. Alguém cujo coração corre à frente do corpo, mas cujo corpo o obriga a abrandar. Alguém que acredita no destino, mas só porque a alternativa é perder-se.
Tenho dias de esperança ingénua, em que a Dila parece quase ao alcance da mão — como se bastasse virar a esquina certa. Depois vêm os outros dias, os mais frequentes, em que a realidade se coloca ao meu lado e diz baixinho: “Calma, rapaz, isto não é assim.”
E eu fico neste vai-vem.
Nos últimos tempos, o meu espírito faz isto: tenta subir, escorrega, tenta de novo. E, por incrível que pareça, não desiste. Talvez porque há algo lá dentro, pequenino mas persistente, que insiste em acreditar. Não sei se é força ou teimosia. Talvez as duas.
Hoje, num dia sem história, dei comigo a reconhecer a minha própria oscilação. Não como falha, mas como condição. Como parte de quem sou nesta idade em que tudo pesa e tudo arde, mesmo quando nada acontece.
Passei o dia a vaguear entre tarefas, entre vozes, entre músicas, e a certeza que ficou foi esta:
tenho medo de ficar preso ao passado, mas tenho mais medo ainda de deixar de sentir.
À noite, aqui no quarto, escrevo com uma tranquilidade que já aprendi a não estranhar. Não é felicidade. Não é tristeza. É aquela zona intermédia em que o futuro parece uma sombra longínqua e o presente uma poça quieta.
Hoje, aceitei-me assim — feito de avanços e recuos, de quedas e renascimentos. E talvez esta aceitação seja, afinal, a única forma de continuar a seguir em frente, mesmo sem saber para onde.
Se o destino quiser escrever comigo, que venha. Se não quiser, eu escrevo sozinho.
A espiral continua — mas sou eu que a percorro.
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