Esta companhia invisível
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 1976
A manhã trouxe de volta a rotina que já me conhece de cor. O Benjamim apareceu cedo, como sempre, violão às costas e aquela disposição tranquila que ele tem para repetir as mesmas músicas sem perder a paciência. Ensaiamos até ao meio-dia, num vaivém de acordes que, sem darmos por isso, foi arrumando o mundo dentro de mim.
De tarde, lá fomos para o liceu. Nada digno de ser contado — apenas aulas que se sucedem como páginas cinzentas, professores a debitar matéria, colegas meio adormecidos. A normalidade inteira embrulhada numa tarde banal. E, por incrível que pareça, soube-me bem esta ausência de enredos. Há dias em que a paz é isso: nada acontecer.
Quando regressei a casa, deixei-me cair na música como quem mergulha num poço fundo, mas sem medo de se afogar. Os Beatles, como sempre, mas também outras coisas que preenchem o espaço entre o peito e o silêncio. A música tem esta delicadeza: entra devagar, instala-se e abafa tudo o que não presta. Afasta pensamentos antes de estes conseguirem armar-se em tempestade.
E assim se passou o resto do dia — sem corridas, sem buscas, sem fantasmas de bicicleta à porta da Dila. Só som. Só ritmo. Só esta companhia invisível que me segura o espírito quando ele ameaça dispersar-se.
À noite, quando o quarto ficou silencioso e a casa adormeceu, senti novamente aquela aceitação que tem vindo aos poucos, como uma visita tímida. Não é resignação, não é desistência. É apenas entender que o futuro virá com as suas próprias pernas, e eu não preciso de o empurrar.
Fecho o diário com esta serenidade estranha, quase macia:
o que tiver de chegar, chegará. E eu esperarei, firme o suficiente para não cair, leve o bastante para não prender o destino pelos ombros.
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