Há caminhos que não se correm

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 1976

Hoje o dia nasceu sem vontade, e eu acordei igual. Não havia aulas — outra vez — e, ao contrário de ontem, não senti aquele sobressalto que me empurrava para o Bonfim. Não houve correria, nem esperança apressada, nem aquela ilusão quase infantil de que o inesperado podia acontecer se eu chegasse a tempo.

Nada disso.

Regressei simplesmente a casa, devagar, com os braços caídos e o passo lento de quem já percebeu que o destino às vezes gosta de brincar ao carrasco. Há dias em que não vale a pena lutar contra ele. E hoje foi um desses dias.

A tarde passou sem sal, dividida entre o Manel e o Benjamim. Conversas curtas, risos ensonados, aquela rotina que existe só para preencher o tempo, não para o transformar. Nada de especial, nada de memorável — apenas horas a serem horas.

Numa dessas voltas, cruzamo-nos com a irmã da Dila. Bastou vê-la para o corpo inteiro reagir, como se alguém tivesse tocado num nervo antigo. A memória abriu-se num segundo: lembranças de encontros, sonhos de juventude, dores tão bem arrumadas que já tinham pó em cima. Estranho como o passado, mesmo adormecido, sabe exactamente quando acordar.

À noite, o silêncio do quarto voltou a ser o meu espelho. Sentei-me na beira da cama, senti as emoções a abrandar — não a desaparecer, apenas a ceder um pouco, como uma fogueira que já não tem força para arder alto.

E aceitei. Outra vez. Aceitei que há caminhos que não se correm, há encontros que não se forçam, e há futuros que têm o passo deles, não o meu.

Seja o que for que venha — bom, mau, inesperado — eu estarei aqui para o receber. Sem heroísmos, sem ilusões, apenas com a serenidade possível de quem já percebeu que o destino é um velho teimoso… mas às vezes, só às vezes, sabe surpreender.


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