Quando o coração acelera

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 1976

A manhã começou com os Beatles ainda a ecoarem dentro de mim, como se a música da véspera tivesse ficado presa às paredes do quarto. O Benjamim apareceu, claro — ele tem esta pontualidade quase telepática — e deixamo-nos ficar num ensaio morno, confortável, como quem partilha um casaco num dia de frio. Há melodias que são melhores companhia do que as pessoas, e há dias em que isto é uma verdade absoluta.

De tarde fomos para o liceu, preparados para mais uma ronda de aulas. Só que, ao chegarmos, encontramos o portão fechado. Nada. Nem um professor, nem um eco. A escola inteira parecia ter ido de férias sem avisar. Olhei para aquilo e senti o corpo todo a acordar num sobressalto.

Foi como se alguém tivesse puxado uma mola dentro de mim.

Sem pensar duas vezes, virei-me para o Bonfim e comecei a correr. O Benjamim ficou para trás, habituado já a estes meus impulsos. Fui com aquela esperança quase infantil de a ver. Talvez ela estivesse ali. Talvez fosse hoje.

Mas não era.

O Bonfim estava vazio. O sítio, tão cheio de possibilidades na minha cabeça, não me deu retribuição nenhuma. Senti o coração bater ainda mais rápido — mas agora por outra razão. Um vaziozinho, desses que não fazem barulho mas deixam marca.

À tarde, não aguentando a inquietação, fui buscar a bicicleta. Havia algo de antigo naquele impulso — um regresso aos velhos hábitos, às rondas silenciosas, à esperança que se veste de teimosia. Pedalei até às proximidades da casa da Dila, com aquela mistura de coragem e vergonha que só um adolescente consegue produzir.

E então, quando passei em frente, apenas vi a mãe.

Olhou para mim com atenção, como quem toma nota de uma repetição. Não sei se reconheceu a insistência, ou apenas viu um rapaz de bicicleta a passar pela rua como tantos outros. Mas naquele olhar havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fez sentir observado por dentro, não só por fora.

Foi aí que senti de novo aquilo que já não sentia há tanto tempo: aquela pequena dorzinha de barriga, estranha e quente, que não é doença nenhuma mas também não é saúde. Um desconforto que embrulha as emoções e faz o coração parecer um rapaz envergonhado.

Regressei a casa com o peso macio dessa sensação.

À noite, os pensamentos voltaram — claro que voltaram — mas não com a violência de antes. Não houve confusão nem tempestade. Apenas uma espécie de morno, como se a saudade tivesse aprendido a falar mais baixo.

E eu, sentado no silêncio do meu quarto, percebi que às vezes basta um olhar, um impulso falhado, uma bicicleta que passa no sítio errado… para que tudo volte a mexer. Ainda que só um pouco. Ainda que devagar.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »