A brisa do destino

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 1976

Acordei ainda meio quebrado do dia anterior, como se o corpo não tivesse decidido se queria ficar de pé ou voltar para o calor da cama. Levantei-me devagar, com aquele cuidado de quem carrega uma dor que não sabe bem onde dói. Mas lá me aprontei, porque a vida não pára por causa das nossas febres pequenas.

O Benjamim apareceu cedo, como sempre. Sentamo-nos os dois a ensaiar músicas até ao meio-dia, eu no meu canto, ele no dele, e a manhã passou num instante. Há algo de curativo em tocar música — mesmo quando o corpo protesta, as notas fazem-nos acreditar que estamos inteiros.

De tarde fui para o liceu. As aulas fizeram-se como sempre: nem más, nem memoráveis — só aquelas horas que se atravessam no meio do dia como se fossem um corredor demasiado comprido. A rotina protege, digo eu a mim mesmo. Mantém a cabeça ocupada, não deixa que as sombras entrem onde não são chamadas.

Mas, por vezes, mesmo no meio da rotina, lá me veio um pensamento súbito, breve como um suspiro: a Dila. Não foi aquela dor funda dos outros dias, foi só uma brisa — quase um reflexo. Um “como estará ela?” que passou tão depressa como veio. Desta vez não lhe dei casa. Deixei que se evaporasse no barulho do liceu.

Quando voltei a casa agarrei-me ao livro que tinha na mesa de cabeceira. Ler é uma espécie de disciplina que me salva: enquanto estou agarrado às páginas, não há espaço para intrusões sentimentais. O mundo fica arrumado.

Depois do jantar, o meu pai pediu-me para lhe mostrar mais umas técnicas de defesa. Vê-lo tão atento, tão orgulhoso, dá-me sempre uma sensação estranha — como se ele visse em mim mais do que eu próprio vejo. Ensinei-lhe os movimentos devagar, corrigindo-lhe a postura. Ele sorriu uma ou duas vezes com aquele ar de quem acha que ainda vai dar um salto mortal a qualquer momento. Deixei-o acreditar.

Mais tarde, o Benjamim voltou. Fechamo-nos no meu quarto a ouvir os Beatles — deixamos “Let It Be” percorrer o espaço todo, como se a canção fosse uma manta quente a cobrir a tarde. Ele saiu quando a televisão lá de casa fechou, como de costume.

E eu fiquei sozinho.

É sempre nesse momento que a casa se faz maior e o quarto mais pequeno. Sente-se a respiração do espírito, aquela solidão que não dói mas pesa. Sente-se o futuro a aproximar-se devagar, como quem não quer assustar. E eu, mais uma vez, aceitei essa aproximação com serenidade.

Não posso agarrar o que não depende de mim. Nem o futuro, nem a Dila, nem as voltas misteriosas do destino. Escrevo isto com a sensação calma de quem largou uma âncora.

O que tiver de vir, virá — e eu estarei aqui, inteiro, pronto.


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