O corpo cede, o destino espreita

Domingo, 8 de Fevereiro de 1976

Acordei cedo, antes do sol ter coragem de aparecer, e senti aquele impulso quase infantil de querer sair de casa antes que os pensamentos me alcançassem. Fui com o Benjamim e o primo dele até Couce para um corta-mato. O ar cortava como uma lâmina fria, mas eu corria com a teimosia de quem quer deixar o mundo para trás. Pelo menos por umas horas.

Depois ainda nos metemos nos treinos de artes marciais. Nada de especial: uns movimentos trocados, umas piadas mal construídas, aquele riso meio parvo que só existe quando se é jovem e se acredita que o corpo aguenta tudo. Mas já nessa altura senti qualquer coisa a ceder por dentro. Uma quebra. Aqueles arrepios que não pertencem ao vento.

No caminho de volta percebi que vinha a ficar adoentado. Nada dramático, só aquela fraqueza que se instala devagar, como quem não quer assustar. Cheguei a casa e fui directo para a cama. Não lutei, não negociei. O corpo ordenou, eu obedeci. Passei o resto do dia debaixo dos cobertores, a ler, a adormecer, a voltar a ler… e, por estranho que pareça, senti um alívio. A doença do corpo venceu a outra, a pior, aquela febre de pensamentos sobre a Dila que me tem consumido nos últimos tempos.

Foi um dia raro: a minha cabeça conseguiu estar longe dela. Nem alegria, nem desespero, nem aquela ansiedade que parece bater asas dentro do peito. Apenas febre, dores nas articulações e um livro que me fazia companhia. E eu, por momentos, soube o que era ter descanso.

Mas quando a noite caiu — ah, a noite nunca me perdoa — a saudade regressou. Não veio como uma onda que derruba, mas como uma brisa teimosa, suave e inevitável. Olhei pela janela, para a escuridão húmida, e percebi uma coisa que me doeu e ao mesmo tempo me aliviou: não depende só de mim voltar a estar com a Dila. O meu desejo não é suficiente para mudar o mundo nem para provocar milagres.

Há passos que são dela. Há caminhos que são do tempo. E há encontros que só o destino decide.

Por isso, antes de adormecer, deixei finalmente cair essa luta inútil. Disse para comigo — quase num sussurro febril, quase num sorriso cansado:

O que tiver de ser… será.

E pela primeira vez em dias, talvez semanas, adormeci em paz.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »