Amanhã tenho de tentar outra vez

Sábado, 7 de Fevereiro de 1976

O dia acordou molhado, como se o céu tivesse dormido mal. A chuva batia nos telhados com o mesmo teimoso compasso que já me rondava por dentro há dias. Acordei tarde — não por descanso, mas por falta de rumo. Um sábado devia ser livre, mas este trazia-me aquela prisão suave de não saber se a voltava a ver.

A manhã passou devagar, como um relógio cansado. O Benjamim não apareceu tão cedo como é costume, e estranhamente isso até me soube bem — precisava de estar só, de ouvir aquele silêncio onde a Dila costuma morar dentro de mim. Andei pela casa a arrastar passos, a tentar fingir que tinha tarefas importantes. Era mentira: só tinha saudade.

Depois de almoço o Benjamim acabou por surgir, sempre ele, como se fosse parte da mobília. Tocamos um pouco, mas o ensaio saiu frouxo. Eu falhava notas, ele falhava paciência. A chuva engrossou e ficamos presos em casa, cada um a tentar parecer entretido. O Monopólio apareceu mais tarde com o Manel, como acontece nos dias em que ninguém quer admitir que não sabe o que fazer consigo próprio. Jogamos os três — eu, ele e essa vontade de a ver — e perdi outra vez, como se o universo insistisse no mesmo resultado.

Ao final da tarde, a chuva apertou ainda mais, e eu dei por mim à janela. O temporal lá fora parecia uma versão exagerada do que eu trazia cá dentro. Eu, ali parado, a olhar a rua deserta, a perguntar-me quantas vezes mais teria de esperar até vê-la outra vez. Senti um aperto no peito — não daqueles dramáticos de novela, mas aquele miúdo, persistente, que te diz: “não tens controlo nenhum sobre o que mais queres.”

À noite, fiquei sozinho na sala com o diário aberto à minha frente. Escrevia devagar, quase a medo, como se cada frase pudesse ser mal interpretada pelo próprio coração. E de repente encontrei-me num monólogo — não por decisão, mas por necessidade:

"Se eu quero tanto vê-la, porque continuo preso a nada? Porque me escondo atrás da chuva, da vergonha, dos dias todos iguais? Que raio de destino é este que me põe sempre a um passo dela e nunca no mesmo passo? Será que um dia vou conseguir, simplesmente, estar ao pé dela… sem sentir que o chão me foge? Hoje não a vi. Mas amanhã… amanhã tenho de tentar outra vez. Nem que seja só para provar a mim mesmo que ainda sou capaz de ir atrás do que me inquieta."

Fechei o diário. Lá fora continuava a chover. Cá dentro também.


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