O eco que volta sempre

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 1976

A manhã trouxe uma luz baça, sem entusiasmo, como se o céu também estivesse cansado. Saí de casa a tentar convencer-me de que hoje podia ser diferente… mas a verdade é que já nem eu acreditava muito nisso. O corpo avança, mas a esperança vai ficando para trás, a perder fôlego.

No liceu, os corredores pareceram mais longos do que o costume. Às vezes a ausência dela transforma tudo numa espécie de túnel onde caminho sem saber o destino. Procurei-a sem procurar — esse hábito automático, quase ridículo, de varrer as caras que conheço à espera daquela que não aparece. Nada. Só o eco insistente da falta.

As aulas foram o habitual desenrolar lento de palavras que não me tocam. Senti-me desligado, como se assistisse à minha própria vida à distância. E o mais estranho é isto: a rotina continua a acontecer, mas parece que já não me inclui por inteiro. Uma parte de mim está sempre noutro lado, presa a um desejo que não encontra forma.

À tarde, tentei ocupar o tempo, mas tudo soou a distração fraca. É difícil interessar-me por qualquer coisa quando a verdade é que só queria uma possibilidade — mínima que fosse — de falar com ela. E quando percebo que o dia está a acabar e não houve sinal nenhum, fica este amargo de derrota que roça o exagero, mas que ainda assim é real.

À noite, voltei ao diário. A caneta parece sempre mais pesada nestes dias. Escrevi sem pressa, como quem encolhe os ombros ao próprio desânimo.

“Talvez eu esteja a criar um mundo que só existe na minha cabeça. Talvez a Dila já tenha seguido em frente e nem dê por falta do que me falta tanto. Sinto que estou parado num ponto que só eu considero importante. E por mais que tente imaginar o reencontro perfeito, sei que a vida não funciona assim. Não funciona para mim. Mas mesmo nesta sensação de falhar, há algo que insiste em ficar: o desejo de não desistir. É um eco teimoso. Volta sempre.”

Fechei o diário e deixei-me ficar um pouco mais à mesa, só para ver se algum pensamento se iluminava. Não iluminou. Mas a noite também não pediu mais do que isto.


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