O peso do talvez

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 1976

Acordei com a mesma pergunta de ontem a agarrar-me ao peito: e se nunca mais a encontrar? É estranho como uma dúvida tão pequena consegue ocupar tanto espaço. Passei a manhã inteira a empurrar o tempo, como quem tenta arrastar uma porta pesada que não abre por dentro. Cada gesto parecia inútil, cada passo apenas mais um círculo à volta de nada.

Na escola, tentei disfarçar esta sensação de falhar sem sequer ter começado. Sorri quando era suposto, respondi quando me chamaram, mas por dentro estava longe — demasiado longe. Às vezes parece que vivo uma vida paralela, uma onde continuo a procurar uma oportunidade que não existe, como se fosse possível encontrar alguém apenas pela força da vontade. Mas a vontade, pelos vistos, não serve de mapa.

A verdade é que começo a sentir um cansaço que não vem do corpo. Vem desta espera sem rumo, desta esperança que insiste em ficar mesmo quando o resto de mim começa a desistir. Olho para os corredores, as salas, a rua onde passo todos os dias… e não vejo nada que me leve até ela. Só vejo a repetição. E é aí que nasce o abatimento: na constatação de que posso querer muito e mesmo assim não chegar a lado nenhum.

À noite, sentei-me outra vez com o diário aberto. A casa estava silenciosa e eu também. Escrevi devagar, como quem tenta não acordar uma dor que já está acordada.

“Não sei o que fazer contigo, Dila. Continuo à tua procura sem te encontrar. Continuo a imaginar o que diria, mesmo sabendo que não vou ter oportunidade tão cedo. E começo a pensar se não estou apenas a enganar-me. Se o problema não é a falta de sorte, mas a minha incapacidade de ir mais longe. Talvez eu não saiba ser ousado. Talvez não saiba sair do sítio. Talvez seja por isso que nada acontece. Mas mesmo assim… continuo a querer tentar.”

Fechei o diário e fiquei algum tempo a olhar para a capa, como se ela me pudesse responder. Não respondeu, claro. Mas ficou ali comigo. Às vezes basta isso.


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