Onde nada acontece

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 1976

Acordei com aquela sensação de peso que às vezes aparece sem aviso, como se a manhã tivesse sido construída com cimento em vez de luz. Saí da cama devagar, sem vontade de enfrentar mais um dia igual, mais um dia sem qualquer sinal dela. Já nem espero acontecimentos, só procuro… uma brecha, um acaso, um milagre pequenino que nunca vem.

As horas passaram como passam as horas quando tudo está parado: não doem, mas desgastam. Na escola, olhei à minha volta como quem procura algo que sabe que não está ali. Cada rosto que via era apenas uma confirmação: a Dila não estava, não parecia que fosse estar, e eu continuava preso neste ciclo de dias vazios. Tentei concentrar-me nas aulas, mas a verdade é que o meu corpo estava sentado e a minha cabeça vagueava, sem destino, sem mapa.

Ao fim do dia, já em casa, sentei-me à secretária com o diário aberto. É sempre aqui que acabo por vir, como se escrever fosse a única forma de provar que existi hoje, mesmo que tenha sido só por fora. Peguei na caneta com a estranha sensação de que já não estou a contar o que vivo — estou a contar o que não consigo viver.

E então veio o monólogo, aquele que não digo a ninguém porque parece sempre exagerado quando dito em voz alta:

“O que é que eu posso fazer, afinal? Ando à volta dos mesmos lugares na esperança de que tu apareças, mas nada muda. Não sei se estou a ser cobarde ou apenas realista. Quero falar contigo, mas não sei onde te encontrar. Quero tentar, mas o mundo não me dá uma única porta aberta. E fico aqui, preso entre a vontade e o medo, sem saber qual pesa mais. Não sei como se chega a alguém que parece tão longe. E a verdade — esta que custa a admitir — é que começo a ter medo de que nunca volte a ter a oportunidade certa.”

Fechei o diário, mas as palavras ficaram comigo. O dia terminou como começou: com a sensação de que o tempo está contra mim… e que eu ainda não descobri como o vencer.


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