Passos que quero dar…

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 1976

A manhã começou com o costume: eu e o Benjamim no ensaio, cada um a tentar levar o ritmo para onde acredita que ele deve ir. Há nisto uma certa ironia — conseguimos acertar notas difíceis, mas tropeçamos sempre nas fáceis, como se a música sentisse a nossa falta de jeito para tudo o que envolve coragem.

A colega, aquela que temos tentado convencer a juntar-se ao nosso grupo, voltou a passar por nós. Sorriu. Disfarçou conversa. Chegou até a dar aqueles passos pequenos de quem quer aproximar-se… mas espera que alguém dê o primeiro gesto a sério. O problema é que nós também esperamos.

O Ben esconde-se atrás de brincadeiras, eu escondo-me atrás do silêncio — e no fim ficamos ali, os três, presos num território onde ninguém tem culpa, mas todos têm medo. A timidez é uma espécie de trincheira: não protege muito, mas dá a sensação de segurança suficiente para não avançarmos.

De tarde, as aulas passaram como sempre: sem ruído, sem brilho, sem nada que me agarrasse a atenção por mais de um minuto. Por vezes lembro-me da Dila, mas já não como um peso constante — mais como aquela sombra que surge quando o sol muda de posição. Uma presença leve, mas que nunca desaparece de todo. Não dói tanto como antes, mas está lá. Como eu, que também estou — mas em suspenso.

À noite, fiquei a pensar que talvez devêssemos ter dito alguma coisa àquela colega. Um simples “porque não te juntas a nós” Só para abrir uma porta. Pode ser que um destes dias um de nós ganhe coragem. Ou que ela a tenha por nós.

No fundo, há passos que quero dar… mas que não dou. E fico a vê-los acontecer apenas na minha cabeça.


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