A chuva por dentro
Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 1976
O dia começou sem drama nenhum, mas eu acordei com aquela névoa que às vezes me ocupa o peito, como se tivesse dormido de costas para o sol. Lá fora chovia, mas o que mais me incomodava era a chuva cá dentro — essa que aparece quando penso que já devia ter esquecido a Dila… e descubro que não esqueci nada.
As aulas passaram sem deixarem rasto. Sentei-me, ouvi, escrevi qualquer coisa, mas tudo parecia envolto numa espécie de algodão. Cada frase da professora era só um som a passar. A minha cabeça estava noutro sítio, nesse lugar onde imagino a Dila a caminhar, distraída, sem fazer ideia da confusão que deixou para trás.
Às vezes pergunto-me se ela me esqueceu com a mesma facilidade com que eu a recordo. E é nessa pergunta que nasce o medo: o de a encontrar e perceber que a distância que senti durante semanas ficou também gravada no olhar dela.
Dou por mim a pensar no reencontro como quem pensa num exame importante: estudo mentalmente o que dizer, preparo respostas, ensaio sorrisos que não pareçam forçados. Mas no fim sei que tudo me vai escapar. Que a timidez vai estragar a perfeição que imagino. Que posso tropeçar na primeira palavra e perder tudo antes de começar.
À noite, li uma notícia qualquer sobre vingança e karaté. O Benjamim ficou excitado com aquilo, claro. Eu não. Talvez porque nos combates que travo ninguém me ataca — sou eu que me derroto.
O dia acabou sem nenhuma história digna de nota, apenas mais uma noite a tentar convencer-me de que amanhã talvez tenha coragem. Ou sorte. Ou qualquer milagre pequenino que a faça cruzar o meu caminho outra vez.
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