A voz interior que não se cala
Domingo, 1 de Fevereiro de 1976
O dia passou sem pressa, como se quisesse ver até onde aguento esta mania de fingir que está tudo igual. As visitas do Manel e do Benjamim são apenas ecos da vida normal, esses gestos automáticos que me mantêm à tona. Falo com eles, rio do que dizem, jogo qualquer coisa… mas por dentro continuo sempre noutro lugar.
A verdade é que tudo o que faço tem o tamanho de um intervalo. O dia inteiro é apenas o tempo que falta até a voltar a ver — ou a não ver, o que é pior. Há mais de um mês que a Dila desapareceu do meu caminho e eu ando a viver como quem anda numa casa às escuras, de braços estendidos, a tentar não tropeçar em mim próprio.
Hoje senti de novo aquele aperto que teima em instalar-se quando a imagino: o medo de, quando o momento finalmente chegar, eu dizer a coisa errada… ou ficar calado demais. A timidez é esta pedra que carrego no bolso: discreta, mas sempre lá. E tenho receio que, quando ela estiver à minha frente, faça o que faz sempre — me arraste para baixo, como se eu tivesse sido feito para falhar o essencial.
Ao fim da tarde ensinei o meu pai uns movimentos de karaté, e por breves instantes senti-me seguro, quase adulto. Mas bastou pensar nela para o chão voltar a fugir um bocadinho. É ridículo como a ausência de uma pessoa pesa mais do que o corpo inteiro dela.
À noite, no meu quarto, qual masmorra, quedo-me só e em silêncio. E nesse silêncio a mesma pergunta de sempre:
como é que se volta a conquistar alguém quando nem se sabe por onde começar?
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