Tempestades que não cessam
Sábado, 31 de Janeiro de 1976
Mais uma noite de insónia. A chuva continuava a cair como se não tivesse intenções de parar — e, dentro de mim, o mesmo desassossego parecia repetir-se em ciclo, noite após noite. Acordei cansado, não do corpo, mas da mente, que insistia em devorar-me com a mesma pergunta silenciosa: Quando a verei?
As aulas da manhã passaram a voar, quase sem que eu desse por elas. A minha atenção vogava como um barco à deriva, empurrada tanto pelo som da chuva nas janelas como pelas lembranças da Dila. Às vezes pensava que era ridículo sentir tanto, e outras vezes parecia-me a coisa mais natural do mundo.
À tarde, O Manel e o Benjamim refugiaram-se da chuva em minha casa para jogar Monopólio, o que nos ocupou durante horas. Houve risos, pequenas discussões sobre quem trapaceava, e até um momento ou outro em que me esqueci de tudo. Era reconfortante sentir que havia ali uma espécie de normalidade, mesmo que apenas temporária. A mente, entretida, deixava-me respirar por instantes.
Mas a noite chega sempre, e com ela a verdade. Antes de me deitar, aproximei-me da janela do meu quarto. Lá fora, o temporal ganhava força: o vento uivava, a chuva parecia querer atravessar o vidro, e as árvores balançavam como se lutassem para não cair.
Observei aquela desordem toda com uma sensação estranhamente familiar. Era o retrato exacto do meu pensamento: um turbilhão que não abrandava, onde cada lembrança da Dila era uma rajada de vento, cada dúvida um trovão surdo, cada desejo uma gota persistente que não deixa de cair.
E assim fiquei por longos minutos, preso entre o que via e o que sentia, até finalmente me sentar à secretária para escrever no Diário — tentando, como sempre, organizar no papel aquilo que nunca sossega cá dentro.
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