O silêncio das lembranças
Sexta-feira, 30 de Janeiro de 1976
A chuva persistiu, fina e contínua, como se o céu quisesse acompanhar a inquietação que me percorre desde há dias. A manhã deslizou depressa, mas dentro de mim tudo se movia devagar — como se cada pensamento sobre a Dila fosse um passo num chão alagado, pesado, difícil de atravessar.
Perdia-me em devaneios. Ora imaginava o brilho dos olhos dela, ora temia que esse brilho já não fosse para mim. Era uma mistura estranha: um aperto no peito que doía, mas ao mesmo tempo me puxava para a frente, como se algo no futuro insistisse em não me deixar desistir.
À tarde, enquanto as aulas decorriam, a cidade mergulhou de repente na escuridão. O apagão no Porto veio acompanhado de um silêncio carregado. Ninguém dizia nada, mas todos sentimos aquele instante suspenso — eu mais do que os outros. Na escuridão, o meu pensamento ganhava uma nitidez quase cruel. Dila, sempre Dila.
Ao fim da tarde, recebi a graduação de 7º Kyu na Academia Soshinkay. Deviam ter sido momentos de orgulho puro, mas mesmo o orgulho chegava misturado com ansiedade. Sentia-me forte no corpo, sim, mas tão vulnerável no coração que quase dava vontade de rir. Ironias da vida. Aprendemos a defender-nos do mundo, menos daquilo que realmente nos atinge.
À noite, no silêncio do meu quarto, o dia começou a pesar. Abri o Diário devagar, como quem abre uma porta para dentro de si. E então, sem planos, tirei da gaveta a fotografia dela — aquela que guardava, não por medo, mas por respeito, como quem conserva uma chama longe do vento.
Olhei-a longamente. E ali, naquele instante, voltou tudo: a ternura, o deslumbramento, o medo, o desejo, a alegria de a ter conhecido e a tristeza de não saber se ainda fazia parte do seu mundo.
Era como segurar um eco — distante mas ainda vivo.
Enquanto escrevia, senti a confusão a transformar-se em qualquer coisa mais profunda. Não era apenas saudade. Era expectativa, esperança, receio, vontade de correr e de parar ao mesmo tempo. Um turbilhão, mas silencioso, discreto, como a chuva que continuava lá fora a cair sem pressa.
E assim terminou o dia: eu, sentado à secretária, com a caneta parada e a fotografia da Dila a iluminar o meu pensamento, perguntando-me baixinho como será o momento em que os nossos caminhos se voltarem a cruzar — e se serei capaz, finalmente, de dizer tudo o que tenho guardado.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »