Palavras ainda por dizer

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 1976

O tempo continuou a chover, como se o céu quisesse prolongar o frio e a espera dentro de mim. A noite foi longa, marcada por uma insónia teimosa: cada som da chuva parecia ecoar no meu peito, e cada pensamento que surgia insistia em levar-me até à Dila. Era impossível desligar-me dela, mesmo quando fechava os olhos.

De manhã, houve um curto ensaio com o Benjamim. A música ajudou a dissipar por instantes a inquietação, mas mal terminou, ela voltou, sempre presente, sussurrando-me ao ouvido palavras que ainda não podia dizer.

À tarde, as aulas passaram rapidamente; terminaram cedo, como se o próprio tempo se apressasse a deixarmo-nos à mercê da espera. Chegado a casa, procurei ocupar a mente com a leitura de ficheiros de casos insólitos. OVNIs, aparições, relatos estranhos… tudo me absorvia por momentos, mas a atenção escapava sempre, regressando aos olhos da Dila, ao sorriso que há tanto não via, à voz que parecia ainda ecoar no corredor do liceu.

Quando a noite caiu, sentei-me sozinho, e não resisti a um  monólogo interior. Perguntei-me o que lhe diria quando a encontrasse. Como iniciar a conversa? Que palavras poderiam traduzir o que sinto sem que o medo de errar me traísse? Cada frase imaginada parecia sempre insuficiente, cada gesto calculado demais. E assim, a noite avançou, em silêncio, com a chuva a persistir lá fora e a minha mente ocupada com palavras ainda por dizer, enquanto o coração batia acelerado na expectativa do reencontro.


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