Entre a chuva e a ansiedade
Quarta-feira, 28 de Janeiro de 1976
O dia amanheceu cinzento, e a chuva voltou a persistir, insistente, quase como se o céu quisesse acompanhar o turbilhão que sentia no peito. O Benjamim apareceu cedo, como de costume, e ensaiamos um pouco antes de me preparar para a escola. A cada gota que batia na janela, a minha ansiedade, fruto da decisão de ontem, parecia crescer, contorcendo-se em pequenos espasmos no meu coração.
À tarde, quando nos dirigíamos para o liceu, o Benjamim mostrou-me os papéis que precisava entregar para o recrutamento militar. O gesto dele, tão natural, contrastava com a minha inquietação. Despedimo-nos ao chegar à escola, mas a minha mente já não pertencia às aulas. Cada sala, cada corredor parecia vazio, como se a minha atenção estivesse a viajar por ruas que só levavam até à Dila.
Quando terminei a quarta aula, regressei para casa. Uma hora depois, o Benjamim voltou a aparecer e ficamos juntos por alguns minutos antes dele se ir embora. Sentei-me à mesa do jantar, mas as palavras não se formavam, o silêncio era pesado e a chuva continuava a bater na janela.
Depois, sozinho, sentei-me a escrever, tentando encontrar algo que me preparasse para o tão desejado momento de rever a Dila. Que dizer-lhe? Como começar a conversa sem que a ansiedade traísse cada pensamento? O coração acelerado, a imaginação a correr à frente, eu procurava palavras que talvez não existissem. A chuva persistia lá fora, e eu permanecia perdido no compasso da própria mente, esperando pelo instante em que poderia finalmente olhar nos olhos da Dila e dizer, talvez sem palavras, tudo aquilo que me consumia.
O dia fechou-se assim, com a noite a cair devagar, e eu a sentir-me preso entre a urgência de agir e o medo do que dizer quando finalmente a encontrasse.
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