O regresso (urgente!) da saudade

Terça-feira, 27 de Janeiro de 1976

A chuva fina persistia desde manhã, quase tímida, mas suficiente para deixar a S. Pedro enevoado e as ruas brilhando como se tivessem acordado molhadas de lágrimas. O Benjamim veio até minha casa como sempre, e ensaiamos um pouco, a rotina diária transformada em pequenos rituais de conforto. Pouco depois, ele foi-se embora, e fiquei sozinho com a sensação de que algo se movia dentro de mim, silencioso e insistente.

À tarde, fomos para o liceu. As aulas sucederam-se, uma mistura de foco e dispersão: matemática exigia atenção, ciências pedia curiosidade, mas os meus pensamentos traiam-me e escapavam-se sempre que pensava na Dila. Na rua, cada rosto que cruzava o meu caminho era medido à luz da saudade que já apertava no peito, como se o mundo inteiro se tivesse desvanecido à espera dela.

Quando as aulas acabaram nada preenchia o vazio que eu sentia no meu peito.

O jantar foi silencioso, a televisão repetindo sons sem significado. E ao sentar-me para escrever no diário, senti aquele aperto no peito: a ansiedade de a ver de novo, será que ela sentia o mesmo desejo de encontro que eu? Um mês, talvez mais, que não a via. A distância crescia, e com ela o impulso quase incontrolável de agir.

Decidi, enquanto a caneta riscava o papel, que tinha de a procurar. Não mais esperar, não mais adiar. A Dila, com a sua presença silenciosa e impossível de esquecer, tornara-se urgente. Era hora de romper o círculo da rotina e da espera, e ir ao encontro daquilo que fazia o coração bater mais rápido.

O dia acabou assim, na quietude de uma chuva persistente, mas com a determinação ardente de que o próximo passo não podia mais esperar.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »