O céu que desperta perguntas

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 1976

O dia começou com uma luz tranquila, filtrada pelas nuvens que se arrastavam lentamente pelo céu. Levantei-me e senti a rotina de sempre a envolver-me, o mundo a acontecer com uma calma quase invisível.

Durante a manhã, acompanhei o Benjamim enquanto falávamos sobre o estranho fenómeno que surgira no céu nos últimos dias. Formas vermelhas e alaranjadas, movendo-se devagar, dançantes, que davam margem a qualquer interpretação — do sobrenatural ao extraterrestre. Rimos das hipóteses mais absurdas, mas ao mesmo tempo não conseguíamos afastar o fascínio de cada possibilidade. Havia algo de mágico no mistério, um convite à imaginação que se estendia para além do céu e penetrava o pensamento.

A tarde passou entre passos conhecidos e silêncios confortáveis. Um galão rápido, o olhar a perder-se por ruas que me eram familiares, e a sensação persistente de que o mundo guarda sempre pequenos segredos que só se revelam a quem observa com atenção. Cada instante parecia trivial, mas carregava consigo uma promessa invisível, uma lembrança de que o desconhecido, mesmo no quotidiano, pode trazer uma alegria inesperada.

À noite, enquanto as sombras se alongavam e o céu se escurecia, fiquei a contemplar novamente as cores que ainda persistiam na memória, imaginando formas e movimentos que talvez ninguém mais tivesse visto. Era como se o dia, com a sua aparente simplicidade, tivesse conseguido despertar algo maior dentro de mim — uma curiosidade delicada, uma sensação de que, por mais previsível que seja a rotina, sempre há espaço para a maravilha e para os sonhos que orbitam silenciosos à volta da vida.


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