Ecos de fim de ano
Quarta-feira, 31 de Dezembro de 1975
O dia ergueu-se baço, como se o céu estivesse cansado de tanto passar. No fundo, talvez estivesse tão exausto quanto eu. As horas de Dezembro têm este encanto triste: andam devagar, mas carregam pressa dentro delas, como quem se prepara para deixar para trás algo que não se sabe o quê.
Acordei a tentar não pensar na Dila — já é altura de abandonar memórias que doem mais do que confortam e de seguir em frente. Nada como o fim do ano para deitar fora aquilo que já não nos serve. Desde aquela conversa atravessada da semana passada que sinto que caminho por território desconhecido, uma espécie de penumbra onde cada palavra pesava mais do que devia. Nada dramático, apenas aquele descompasso que só existe quando se gosta demasiado de alguém que não retribui.
Passei parte da manhã a vaguear pelas ruas, sem destino, como quem espera que a Vila dite o próximo passo. S. Pedro da Cova trazia um frio pouco habitual e, ainda assim, via-se a miudagem a correr com as suas prendas de Natal, como se o mundo fosse simples e claro. Eu, no meio deles, tentava decifrar o meu próprio coração, como se fosse um manuscrito antigo escrito à pressa.
À tarde, sentei-me a ler — ou a tentar, vá. As palavras teimavam em fugir-me, talvez por estarem ocupadas a seguir o ritmo do que se agitava cá dentro. E dei por mim a pensar no que realmente mudará quando o relógio bater a meia-noite. Não me iludo: os anos mudam menos do que fingimos. Mas às vezes basta acreditar que algo se renova para ganhar coragem.
E, sim, perguntei-me se devia procurar a Dila antes que o ano morresse. Não para resolver o que já está quebrado — entre nós, tudo parece estilhaçado. Mas talvez para lhe dizer que, mesmo quando o mundo parece em pausa, ela poderia abrir uma frincha na porta e deixar-me entrar, só o suficiente para eu poder fazer parte da vida dela. Apenas isto.
A noite promete barulho; já ouço vizinhos a arrastar mesas e a ensaiar gargalhadas. Mas gosto mais deste momento suspenso, este intervalo antes da festa, quando o tempo ainda não decidiu mudar. Falta-me saber se ela pensará em mim quando a Vila inteira contar regressivamente — ou se já me esqueceu definitivamente.
Se pensar… talvez seja sinal bastante para eu começar o ano com uma pequena ousadia.
Se não pensar… que se lixe, começo na mesma. A vida não espera, e eu também já começo a aprender a não esperar tanto.
Hoje fica isto: uma vontade enorme de que o futuro me traga algo novo, ou um novo renovado, o suficiente para eu seguir adiante sem carregar peso desnecessário.
E, quem sabe, quando o primeiro foguete riscar o céu, talvez encontre a resposta que o dia inteiro me negou.
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