O desenho distrai a mente

Terça-feira, 30 de Dezembro de 1975

O dia despontou ainda tímido, com o céu acinzentado a lançar uma luz difusa sobre S. Pedro da Cova. Decidi sair em busca de um motivo para desenhar, afastei-me das paredes da casa e levei comigo um lápis e um caderno. Meia dúzia de passos depois, puxei por um banco e, virado para o nosso quintal, encontrei inspiração nas poucas árvores de fruto, numa sebe de flores bem tratada pela minha mãe e ao fundo um galinheiro arquitetado e construído pelo meu pai. Observei atentamente cada árvore de fruto, cujos troncos e ramos pareciam guardar segredos antigos, histórias de verões passados e invernos silenciosos. Ao fundo, o galinheiro emitia o seu burburinho habitual, e o som das galinhas a cacarejar transformava-se num ritmo familiar, quase reconfortante.

Sentado no banco deixei o lápis a deslizar pelo papel enquanto os olhos tentavam capturar o contorno das árvores de fruto, os galhos retorcidos, os limões, ainda firmes e amarelados, resistentes ao frio. O galinheiro ao fundo continuava discreto, mas vivo, lembrando-me da simplicidade da rotina que se mantém mesmo quando tudo parece parado. Cada traço era uma tentativa de traduzir em formas aquilo que a palavra não alcançava: o movimento silencioso das folhas, a força dos troncos, a quietude do quintal em dia frio.

O vento trouxe consigo o cheiro da terra húmida, das folhas caídas, e até das penas das galinhas que se agitavam de vez em quando. Inspirei fundo, senti-me parte daquele espaço, simultaneamente observador e observado. Cada som, cada sombra, cada detalhe do quintal preenchia o vazio que se escondia dentro de mim, tornando o silêncio menos pesado, quase companhia.

Horas se passaram sem que eu desse conta. O lápis riscava o papel, a mente vagueava entre lembranças e pensamentos, entre a monotonia do dia e a beleza crua da natureza. Quando a tarde começou a esmorecer, recolhi o caderno e olhei mais uma vez para o quintal: árvores e galinheiro permaneciam intocados pelo meu passar, mas algo dentro de mim sentiu-se nutrido, como se aquele espaço simples tivesse guardado um pouco da minha própria calma.

Recolhi-me para dentro de casa, com a sensação de que mesmo nos dias mais desinteressantes há momentos de quieta contemplação que valem por qualquer aventura. E assim terminou o dia, em silêncio, com o coração ligeiramente mais leve e a mente cheia de traços e sombras do quintal que me observa.


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