A mão desenha, a mente vagueia
Segunda-feira, 29 de Dezembro de 1975
O dia acordou cinzento, morno, com um silêncio que pesava nos ossos e no coração. Levantei-me sem ânimo, sentindo que cada gesto era apenas uma repetição do anterior, sem brilho, sem expectativa. A casa parecia maior, fria e o eco dos meus passos lembrava-me a solidão que insistia em se instalar.
Para escapar à monotonia que me esmagava, voltei o olhar para fora, para as serras que circundam S. Pedro da Cova. Lá estavam elas, imponentes e silenciosas, cobertas por uma névoa preguiçosa que se agarrava às encostas. Por um instante, senti uma espécie de alívio: a beleza crua da natureza, eterna e indiferente, oferecia-me um abrigo invisível para a minha melancolia.
Sentei-me junto à mesa, peguei num papel e num lápis e comecei a desenhar. Cada linha que traçava, cada contorno de montanha ou árvore, era uma tentativa de me encontrar dentro do caos que me habitava. A mão desenhava, mas a mente vagueava: reflectia sobre a minha existência, sobre as estradas que já percorri e aquelas que talvez nunca mais voltarei a percorrer. Os vultos da vida e da ausência confundiam-se com a paisagem, mas ali, naquele papel, tudo parecia fazer sentido, ainda que efémero.
O vento que soprava lá fora trazia aromas de terra molhada e folhas em decomposição, e cada som se transformava em companhia. O canto distante de um pássaro, o restolhar das folhas das árvores, tudo parecia preencher o vácuo existencial que sentia. Por momentos, senti-me menos só, menos abandonado, como se a própria natureza entendesse a minha angústia silenciosa.
Horas se passaram entre rabiscos e contemplação. Cada traço era um diálogo comigo mesmo, uma tentativa de traduzir em linhas e formas aquilo que não conseguia dizer em palavras. A tristeza permanecia, mas havia uma estranha paz na constância daquelas serras, na certeza de que o mundo seguia, indiferente aos meus pequenos tormentos, mas belo de uma forma que me permitia respirar, ainda que por pouco tempo.
Quando a noite caiu, recolhi-me ao quarto, olhando mais uma vez pela janela. As serras permaneciam, sombras suaves no horizonte, lembrando-me que mesmo quando tudo parecia perdido, havia beleza suficiente no mundo para manter a alma de pé. E assim termino o dia, só, melancólico, mas de alguma forma nutrido pelo mundo que me cerca, consciente de que a solidão pode ser dolorosa, mas também uma forma de me reencontrar comigo mim mesmo.
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