Fantasmas do silêncio
Domingo, 28 de Dezembro de 1975
O dia começou cinzento, pesado, como se o céu também sentisse a ausência que me preenchia o peito. Levantei-me, mas a rotina parecia-me vazia, cada gesto ecoando na casa silenciosa sem trazer qualquer calor. O Natal já se fora, e comigo ficou apenas um vazio insistente, uma memória doce que se recusava a abandonar-me.
Passei a manhã observando a rua pela janela, esperando encontrar sinais que não vinham, rostos que o tempo escondia. Cada passo nas calçadas era acompanhado por um pensamento fugaz, uma saudade que se enroscava nos meus ombros como um cobertor pesado demais. Os risos que ouvia ao longe pareciam-me ecos de tempos idos, de tardes passadas que agora existiam apenas em lembranças, impossíveis de repetir.
Mesmo nas pequenas rotinas, cada tarefa parecia incompleta, como se tudo estivesse pintado de uma cor pálida, desprovida de vida. Os vultos anónimos na rua, as vozes surdas de quem passava, até o vento a mover as folhas, tudo me lembrava aquilo que não podia alcançar.
A tarde arrastou-se, lenta e pesada. Saí, caminhando sem destino, sentindo a minha terra estranhamente estranha, como se cada esquina tivesse guardado um segredo que eu não podia descobrir. Havia momentos em que a esperança surgia, um instante em que pensei que talvez encontrasse alguma presença conhecida, mas logo se dissipava, deixando apenas o eco do que desejava e não acontecia.
Ao anoitecer, sentei-me junto à janela do meu quarto, deixando que a escuridão me envolvesse. Os dias anteriores tinham trazido algum alento, algum calor no coração, mas hoje tudo parecia desvanecer-se. A saudade crescia, misturando-se com um receio cuja razão não compreendia: medo do futuro, medo de que a vida seguisse sem qualquer possibilidade de recuperar o que uma vez foi tão luminoso.
Antes de me deitar, escrevo estas linhas com uma dor suave, uma tristeza que não encontra consolo. Apesar dos dias recentes terem trazido alegria e animação, hoje percebo que o coração não segue um ritmo constante: há momentos de luz, e há momentos em que os fantasmas do silêncio e da ausência se instalam, lembrando-me que nem tudo se controla, nem tudo se antecipa.
E assim termina este dia, com a consciência pesada, com o espírito a lamentar o que já não volta, e com a certeza de que a vida, por mais alegre que seja em outros instantes, mantém sempre cantos escuros que só o coração sente.
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