Ecos do que não se vê

Sábado, 27 de Dezembro de 1975

O sol nasceu tímido, espreitando entre nuvens preguiçosas, e trouxe consigo uma luz que parecia dançar sobre a rua silenciosa. Levantei-me ainda sonolento, mas com o coração inquieto, desejando que aquela que preenche os meus dias e noites, surgisse em algum canto da minha imaginação ou, quem sabe, da realidade.

A manhã passou-se lentamente, cada som parecia um eco de pensamentos que só eu ouvia. O chilrear distante de um pássaro transformava-se numa melodia de recordações; o vento que agitava as árvores trazia-me à memória uns cabelos esvoaçantes, levando-os a dançar nos meus devaneios. Tentava concentrar-me nas rotinas de casa, mas o meu espírito estava longe: o calor do chá na minha mão, até mesmo o aroma das flores do quintal, que a imaginava algures a observar com curiosidade e encanto o mundo em seu redor.

Decidi sair, vagueando pelas ruas que conhecia tão bem, mas que hoje pareciam diferentes, como se o mundo inteiro tivesse se moldado à sua ausência. Cada esquina, cada janela, era um convite silencioso para a imaginar, para seguir os passos de uma presença que me perseguia apenas nos sentidos do coração.

Ao final da tarde, sentei-me sozinho, olhando através do vidro da sala, contemplando a luz que morria devagar. E foi nesse instante que a memória dela me inundou: o gesto de inclinar a cabeça quando ouvia uma história, o brilho dos olhos azuis quando sorria, a forma como o mundo parecia mais leve à sua volta. Sentia uma mistura de alegria e saudade, como se o próprio tempo se dobrasse para me lembrar do quanto ela era presença e ausência, tudo ao mesmo tempo.

Antes de me deitar, escrevo estas linhas, sentindo que cada pensamento, cada devaneio, é um presente silencioso que o Natal me deixara: a certeza de que o amor, mesmo invisível, continua a guiar os meus passos e a aquecer cada instante, mesmo quando ninguém mais parece perceber.


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