Entre o silêncio e o sonho
Sexta-feira, 26 de Dezembro de 1975
O dia começou com um céu cinzento, pesado como se o inverno quisesse fazer sentir a ausência de cor nas ruas e nos pensamentos. Levantei-me cedo, sozinho no quarto, e o silêncio parecia cantarolar apenas para mim. O Natal tinha passado, mas dentro de mim ainda ecoava a música suave da lembrança do seu sorriso.
Enquanto tomava o pequeno-almoço, a minha mente insistia em projectar a Dila nas pequenas coisas: como ela teria desembrulhado presentes, se teria dado risadas discretas com a família, se o seu olhar se perdera em pensamentos semelhantes aos meus. Cada palavra dela, cada gesto, parecia agora uma chama que aquecia os cantos mais recônditos do meu coração.
Saí para uma breve caminhada, o frio a mordiscar-me as mãos, mas a imaginação a aquecer-me a alma. Via-me a segui-la à distância, imaginando encontros impossíveis: ela a caminhar pelo passeio, distraída, talvez a observar alguma flor que tivesse sobrevivido ao inverno; e eu, oculto, a tentar capturar cada detalhe como se pudesse guardar o tempo para mim numa tela mágica.
Durante a tarde, vaguei pelas ruas com o Manel e o Benjamim, mas nem as conversas, nem os risos conseguiam afastar a presença dela da minha mente. Cada sombra nas janelas lembrava-me o contorno do seu corpo; cada porta que se abria era, na minha fantasia, a porta da sua casa a chamar-me.
À noite, sentado à mesa, percebi que o dia não tinha dado histórias concretas, mas tinha oferecido imagens e sensações: o riso que eu imaginava, os olhos que eu desenhava na memória, o perfume invisível que eu sentia no ar. E, entre estas imagens, sentia-me mais perto dela do que em qualquer encontro real, porque no silêncio e na imaginação, a Dila era minha inteira e completamente.
Antes de me deitar, escrevi estas linhas, sentindo que o amor silencioso podia preencher mais que qualquer festa ou presente. Porque o que sinto por ela é mais profundo do que a realidade: é um fluxo constante que molda os meus dias, mesmo quando tudo à volta parece comum.
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