Natal Silencioso

Quinta-feira, 25 de Dezembro de 1975

O Natal chegou com a sua rotina multicolorida com músicas e canções, e, ainda assim, parecia insuficiente para preencher o vazio que sentia dentro de mim. Levantei-me cedo, envolto na penumbra do quarto, e o frio da manhã parecia sussurrar segredos que apenas o coração sabe ouvir. Fui à missa com o Benjamim e o Manel, mas nem a música, nem os cânticos me conseguiram arrancar do meu próprio pensamento.

A cada passo pelas ruas, a minha mente voava para a Dila. Perguntava-me o que estaria a fazer, se estaria a pensar em mim, se o seu sorriso matinal reflectia a mesma luz que tantas vezes me iluminou a alma. Via-lhe o rosto nos rostos que passavam, nos reflexos das montras, nos risos de crianças que, por momentos, me lembravam da pureza dela.

De tarde, acompanhado pelo Benjamim, vagueei por caminhos familiares, mas a paisagem parecia estranhamente vazia, como se a nossa Vila inteira tivesse escondido a Dila, como se o Natal se tivesse esquecido de nos unir. Cada árvore decorada, cada lareira acesa, parecia-me um palco de memórias que nunca partilhei com ela, mas que o meu coração insistia em projectar: o riso dela, o modo como inclinava a cabeça quando ouvia uma história, a suavidade do seu olhar que conseguia parar o tempo.

À noite tentei encontrar distração, mas os filmes da televisão, com as suas histórias de fantasia e de cor, pareciam pálidos diante da cor viva da Dila que eu mantinha dentro de mim. E, entre cenas e diálogos, a minha mente escrevia um filme secreto, em que "Ela" sorria só para mim, caminhando por ruas iluminadas por lanternas, e eu, sem coragem de a seguir, observava cada gesto seu como se fosse um poema silencioso escrito apenas para os meus olhos.

Quando finalmente me fechei no quarto, escrevendo estas linhas, percebi que o Natal me havia deixado com presentes silenciosos: a lembrança de um olhar, o perfume de uma presença imaginada, a certeza de que a Dila ocupava cada espaço da minha alma, mesmo nos dias em que a realidade parecia não nos tocar.

Assim terminei o Natal de 1975 – não com presentes, nem com festas, mas com um coração pleno de devaneios, de saudade e de amor silencioso.


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