A noite em que o coração não pára de escutar
Quarta-feira, 24 de Dezembro de 1975
A manhã começou antes do que eu queria — não por causa da luz, mas porque o Manel apareceu à porta, ofegante como quem traz uma notícia que não consegue guardar só para si. Entrou sem cerimónia, como sempre, e soltou a bomba:
— Vi a mensagem no muro da Dila. Em inglês. Foste tu, não foste?
E antes que eu abrisse a boca, já acrescentava, com aquele ar travesso que só ele sabe fazer:
— Escrevi o teu nome por baixo… para ela saber quem foi.
Fiquei ali parado, entre o pânico e a vontade de lhe agradecer. Um nó apertou-me a garganta: parte de mim desejava sumir do mapa; a outra parte… bom, essa parte sorria por dentro. Ele fizera o que eu não tive coragem de fazer — pôs assinatura no meu coração exposto.
Passei o resto da manhã inquieto, com a sensação de que a qualquer momento o mundo podia inclinar-se para um dos lados: o desastre ou o milagre. Mas era véspera de Natal, e a família preparava-se para o grande ritual anual, e eu não podia deixar que o tumulto cá dentro se espalhasse pela casa.
A tarde trouxe aquele vaivém doméstico que anuncia festa: vozes que sobem e descem, tachos a ferver, o cheiro do bacalhau e das batatas a ocupar cada canto, como uma memória repetida ano após ano. Aos poucos deixei-me embalar nessa liturgia caseira, como se a tradição fosse um cobertor quente para a minha inquietação.
Quando a noite chegou, chegou inteira.
À mesa sentámo-nos todos — como sempre — e repetimos o mesmo menu que parecia existir desde antes de eu nascer: as batatas de Natal, o bacalhau, os vegetais.
Depois, o desfile das doçarias que quase davam para alimentar um batalhão: bolo-rei, rabanadas, creme torrado, frutas secas, pinhões, avelãs, figos, amêndoas. E, claro, o vinho do Porto a abrir caminho para os espumantes e os licores.
Tudo isto antes dos inevitáveis jogos de família, que só começam quando já ninguém se aguenta de cheio.
Havia alegria na casa — aquela alegria específica do Natal, que não é euforia, é pertença.
E talvez por isso o coração me tenha batido com mais força quando, já perto das onze, o Manel e o Benjamim bateram à porta para se juntarem a nós. Tinham jantado em suas casas, mas a tradição dizia que a segunda parte da noite era sempre passada ali, comigo, como se aquele momento final selasse o ano.
Rimo-nos, jogámos, comemos o que já não cabia e, por instantes, até consegui esquecer o muro, a mensagem, o nome escrito por baixo. Mas bastava um silêncio mais prolongado, um copo pousado com calma, um olhar perdido… e a pergunta regressava:
Terá ela visto? Terá entendido? Terá… sentido qualquer coisa?
Nas pequenas pausas da noite, o meu coração parecia escutar o mundo inteiro à procura de resposta.
Mas nada.
Só o Natal, inteiro e luminoso, a envolver-nos a todos.
E talvez tenha sido suficiente. Pelo menos por hoje.
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