A coragem que só existe no escuro

Terça-feira, 23 de Dezembro de 1975

Acordei com o mesmo peso dos dias anteriores, aquela inquietação que parecia querer instalar-se no peito como hóspede permanente. Mas tentei enganar-me: fiz a manhã andar com coisas simples — um pequeno-almoço lento, uma volta curta pelos arredores, um olhar distraído sobre o mundo. Nada funcionava, claro. Quando o coração está virado ao contrário, o resto é só cenário.

Passei a tarde a tentar ocupar-me, mas os pensamentos eram insistentes: cada desvio mental acabava sempre nela. A Dila tinha-se tornado uma espécie de vento interior — não se vê, mas empurra tudo. E quanto mais tentava pensar noutra coisa, mais ela se aproximava, quase teimosa.

Quando a noite caiu, trouxe consigo aquele véu que dá coragem aos tímidos e ideias descabidas aos apaixonados. Saí de casa sem grande plano, apenas com o impulso que já me vinha a acompanhar há dias: fazer qualquer coisa, por mínima que fosse, que deixasse no mundo a prova de que eu existo no universo dela — nem que fosse só como eco, só como rasto.

As ruas estavam quase desertas, com as luzes de Natal a piscar com entusiasmo. Caminhei rápido ao início, devagar depois, como quem se aproxima de um lugar sagrado. E ali estava — a casa dela. Silenciosa, discreta, com aquela serenidade que eu invejava. O muro à frente parecia apenas um muro…, mas nessa noite tornou-se mais: tornou-se palco.

Olhei em volta para garantir que ninguém me via, embora a verdade seja esta: mesmo que alguém visse, eu não teria parado. Tirei do bolso o pequeno pedaço de giz que trouxera “por acaso” (nenhum acaso alguma vez foi tão planeado) e escrevi no muro, devagar, em inglês — a língua que me parecia esconder melhor o meu coração, ao mesmo tempo que o revelava a quem o soubesse ler.

“Merry Christmas to the girl who doesn’t know she owns half my thoughts.”

Ficou simples. Ficou sincero. Ficou… meu.

Dei dois passos atrás para olhar a frase como quem observa uma confissão que não quer admitir. Era pouco? Talvez. Era infantil? Sem dúvida. Era tolo? Inevitavelmente. Mas, naquela hora, parecia a única forma possível de existir perto dela.

Depois recuei, devagar, deixando o muro como o encontrei — ou quase. A mensagem brilhava discretamente sob a luz amarela do candeeiro. O meu coração, esse, não brilhava nada: batia descompassado, como quem não sabe se acabou de cometer uma ousadia bonita ou um disparate irreparável.

No caminho de regresso, senti aquele misto de vergonha e orgulho que só os apaixonados conhecem. Não sabia se ela leria. Não sabia se perceberia. Não sabia sequer se ligaria. Mas, pela primeira vez em dias, senti que tinha feito algo — mesmo que invisível, mesmo que inútil, mesmo que apenas para aliviar a pressão aqui dentro.

Depois de discorrer este dia no meu diário, irei adormecer cansado, mas leve — como quem, finalmente, encontra uma forma de respirar. Algures na casa, o rádio cantarolava uma canção de Natal… nem a propósito, pensei eu: The Little Drummer Boy. E o meu coração, quase sem pedir licença, acompanhou as batidas.


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