Os caminhos que me escolhem
Segunda-feira, 22 de Dezembro de 1975
As férias começaram, mas o meu corpo ainda não sabia disso. Acordei cedo, por hábito, como quem obedece a um relógio antigo que não quer ser esquecido. Durante alguns minutos fiquei a olhar o tecto, a sentir aquela mistura estranha de alívio e desassossego — uma pausa na escola não significa uma pausa em mim. Antes pelo contrário: deixa mais espaço para os pensamentos desobedientes se espalharem.
Saí de casa sem rumo definido, apenas com vontade de respirar o frio da manhã e de me perder um pouco pelas ruas onde cresci. Os subúrbios têm uma maneira muito própria de nos falar: são feitos de gente apressada, cães sonolentos, portas que se abrem para dentro, caminhos desenhados sem pressa. Eu conheço cada esquina, cada muro rachado, cada pedaço de estrada como quem conhece o próprio rosto. E, no entanto, cada passo que dou parece conduzir-me sempre ao mesmo lugar.
Não era o destino que eu escolhia — era o destino que me escolhia.
Caminhava devagar, as mãos nos bolsos, a tentar distrair-me, mas os pensamentos insistiam em puxar-me pelas pontas da consciência. A Dila. Era sempre ela. Era como se o simples facto de ter tempo livre desse licença à cabeça para inventar histórias, revisitar cenas, recapitular conversas que não aconteceram, mas que eu insistia em repetir mentalmente, como um actor a treinar falas de uma peça que talvez nunca suba ao palco.
Segui pelas ruas do costume, virei onde sempre viro, atravessei o largo com a mesma lentidão de todos os dias em que preciso de pensar sem ser interrompido. Mas quando dei por mim, lá estava eu — a aproximar-me outra vez dos caminhos que me levam a ela, como um íman que não sabe contrariar-se.
Não encontrei ninguém, claro. Era só o mundo no seu ritmo normal e eu no meu desalinho habitual. Mas a verdade é que não procurava um encontro. Procurava… não sei bem o quê. Talvez só um sinal de que aquilo que sinto não é tão absurdo quanto parece. Ou talvez procurasse apenas o conforto da proximidade — mesmo que invisível, mesmo que nenhuma porta se abrisse, mesmo que nada mudasse.
O resto da tarde passou na mesma melodia: caminho, pensamento, memória, caminho outra vez. Não havia escola, não havia horários, não havia obrigações. E, paradoxalmente, havia mais de mim do que eu estava preparado para enfrentar.
Regressei a casa cansado daquela fadiga que não vem do corpo, mas do coração. E ao fechar a porta atrás de mim, pensei numa coisa simples e verdadeira: às vezes, as férias são só isto — um tempo maior para nos perdermos nos próprios labirintos.
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